Minhas opiniões e publicações, expostas neste espaço, são reflexões acadêmicas de um cidadão-eleitor, publicadas ao abrigo do direito constitucional da liberdade de expressão

"Por favor, leia devagar." (Ferreira Gullar)

30 setembro, 2005

Outros argumentos

O Fla-Flu das armas (Guilherme Fiúza)
O fenômeno se repete. Na eleição de 2002, quando Lula foi ungido presidente do Brasil, uma situação curiosa se passava em boa parte dos círculos mais esclarecidos da população. Quem não votasse em Lula era olhado da cabeça aos pés com desconfiança. Fosse colega, namorado, amigo de infância, irmão, aquele sujeito tinha algo de muito suspeito, por não querer aderir à corrente do bem. Está acontecendo exatamente a mesma coisa agora, na campanha do plebiscito sobre venda de armas.
O debate está colocado da forma superficial e fajuta de sempre. Quem vota “sim” é contra as armas. Quem vota “não” é a favor das armas. E aí entra a outra lei da raça humana que não falha: quanto mais superficial é o entendedor, mais intolerante ele se revela; e quanto mais intolerante é o indivíduo, mais superficial revela-se o seu entendimento das coisas. Portanto, quem está interessado em discutir a fundo o que vai acontecer com o país quando a venda de armas de fogo for proibida, recolha-se à sua insignificância e aguarde outra oportunidade não-plebiscitária.
No dia em que o debate voltar a ser permitido pelos patrulheiros do bem, seria interessante fazer uma distinção fundamental: desarmamento é uma coisa, proibição do comércio de armas é outra. Isto é, o sujeito pode querer, desejar, sonhar com uma sociedade desarmada, e ao mesmo tempo acreditar que a proibição não o aproxima do seu sonho. Será possível?
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, militante do “sim”, divulgou um dado interessante. A campanha pelo desarmamento já reduziu em mais de 40% o número de homicídios no estado. Trata-se do mais poderoso argumento em favor do “não” – não o “não” advogado pela bancada da bala, pelos boçais, os facínoras e as criaturas cheias de ódio e pulsões mórbidas; mas sim o “não” advogado por quem acha que jogar as armas no mercado negro será o maior combustível para a violência observado no Brasil nas últimas décadas. Portanto, para usar a linguagem dos superficiais e intolerantes, será a maior burrice dos últimos tempos.
Como um disco arranhado, o debate sobre o voto “não” sempre enguiça no argumento de que a população civilizada vai ficar sem defesa contra os bandidos armados. Evidentemente não é este o ponto. Jorram estatísticas mostrando que quem tem arma em casa acaba, na maioria dos casos, vítima dela. Ou por acidente, ou porque o bandido saca primeiro, ou porque ela é roubada e usada contra o dono. O mesmo acontece com a arma no porta-luvas, na cintura, em qualquer lugar. Não serve, em termos estatísticos, para defender o cidadão de bem.
A desonestidade da campanha do plebiscito é fazer crer que o voto “não” é necessariamente contra o desarmamento, ou a favor do “direito de cada um defender-se como quiser” etc. A pergunta é: o que acontecerá com a vida brasileira depois de proibida a venda de armas? De saída, uma rápida observação: é permitida a venda de fuzis americanos AR-15 à população civil brasileira? Evidentemente que não. Por que, então, o Rio de Janeiro está coalhado de fuzis AR-15, nas mãos de qualquer um que puder pagar por eles? Porque essas armas existem, foram inventadas um dia pela mente humana, são fabricadas regularmente e os fabricantes fecham os olhos, fazem o sinal da cruz, pedem desculpas a Papai do Céu e entregam-nas aos contrabandistas.
É exatamente o que vai acontecer com os revólveres, pistolas, espingardas e similares, em território brasileiro, com o triunfo do virtuoso “sim”. Os portadores de armas sensibilizados pela campanha do desarmamento estão se desfazendo delas – e continuariam, em número cada vez maior, sem o plebiscito. Não porque estejam sendo obrigados, constrangidos ou bloqueados pela lei. Estão sendo sensibilizados, educados pela via inteligente da dissuasão.
Mas há os que não entregaram suas armas, e não as entregarão em tempo algum. Assim como há os que continuarão querendo armar-se, em qualquer hipótese, e vão procurar a arma onde ela estiver – assim como um fã tarado por Caetano Veloso possivelmente pagará ao cambista se os ingressos para o show estiverem esgotados; como o viciado ou apreciador de um baseado possivelmente pagará ao traficante para fumar maconha (não obstante todas as campanhas positivistas que tentam relacioná-lo aos crimes mais brutais da bandidagem); como vários empreendedores pagaram a contrabandistas, por anos e anos, para ter computadores decentes para suas empresas, driblando a patriótica reserva de mercado da informática; como os apreciadores de um bom vinho e/ou os alcoólatras crônicos pagaram felizes da vida a Al Capone nos Estados Unidos durante a Lei Seca.
No mundo encantado dos patrulheiros do “sim”, a proibição da venda de armas vai matar o desejo de comprá-las, e fazer evaporar as milhares de unidades de fabricação delas. A campanha mundial contra o tabagismo, baseada em informação sobre danos e desglamourização do cigarro, feriu de morte a indústria do tabaco. Não porque proibiu o fumante de entrar no botequim e pedir um maço de Hollywood. Mas porque mostrou a ele que não era exatamente “ao sucesso” que aquela droga o levaria.
Este é o caminho inteligente, civilizado e único para o desarmamento. A dissuasão pelo esclarecimento. Mas quando os homens virtuosos estão lambuzados em suas boas intenções, não adianta pedir-lhes um dedo de prosa se for para contradizê-los. É pena. O bem está prestes a dar ao crime organizado seu grande impulso no século que se inicia.
(publicado em "nominimo" - portal IG)

6 comentários:

Elaine disse...

Perfeito o texto do Fiuza. É isso, mesmo. Vamos ficar cada vez mais acuados diante da bandidagem. Eu ainda não perdi as esperanças e já passei meus e-mails, já fui "criticada" e por pouco não respondi no tom animalesco "estava de TPM", mas graças a Deus consegui me conter e ser "elegante", ou melhor, educada.
Eu dgo não um milhão de vezes, enquanto os governantes não fizerem uma política de segurança pública decente, desarmando os bandidos, cuidando dos menores de rua, cuidando das pessoas carentes com oportunidades e não com "programas sociais eleitoreiros". Enfim, quando algo nesse sentido for feito a própria populaçao se desarmará espontâneamente.
Sds...Elaine

Elaine disse...

PS: Ozéas, eu vou manter dos dois bloggers por enquanto. O civiblog ficará mais para as divulgações culturais, projetos e área jurídica que sempre mantive em meus sites. Eu continuo ainda por algum tempo no sleiyver do blogger.com para ficarmos trocando figurinhas.
bjs...Elaine

Ricardo Rayol disse...

Sábias palavras

Marcelo Orlando disse...

Mais um adepto ao "não"...
Esse plebiscito é uma piada e um afronto a minha inteligência... Usam de paleativos ridículos para dissuadir o verdadeiro problema... "as autoridades não conseguem desarmar os bandidos e diminuir a violência"... E ficam aí distraindo a atenção do povo, tentando iludi-los que essa vai ser a solução para o problema da violência... é ridículo...

Alice disse...

Concordo plenamente com a Elaine :)
Mas cá entre nós ,o Elaine vc surtou?caiu de rede de cabeça ?
O final do seu coments já é delirio .
òtimo final de semana :)

vera lucia disse...

Olá...Tem meu apoio em tudo que escreveu.