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"Por favor, leia devagar." (Ferreira Gullar)

22 Fevereiro, 2012

Esfriando os tamborins


Terminada nossa dose anual de desatino, guardamos a fantasia no armário, vestimos novamente nossos uniformes operários e voltamos para o trabalho.


Voltamos melhores que fomos ou sequer saímos do lugar? Entorpecemos-nos de alegria ou só fizemos uma parada para resistir o resto da caminhada? Saltamos os dias em prazerosa inconsequência ou teremos que compensar o tempo usurpado? Comemoramos nossas felicidades ou alienamos temporariamente nossos dissabores num mitológico momento momesco?


E se não bastasse somente nossa consciência, ficam esses versos iniciais do Drummond martelando na cabeça:

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, Você?

17 Fevereiro, 2012

No meio da festa, me permito ficar lúcido

Sinto-me como que escalado para ser o “motorista da rodada”, ainda que ninguém tenha me pedido para tal, ou sequer uma opinião, porém, me deixem brincar de “grilo falante”, a questão é breve:

A aprovação da “ficha limpa” me reanima sob o ponto de vista moral, o país ainda não está totalmente perdido, todavia, apreensivo sob o aspecto jurídico; é um precedente perigoso do STF num país em que juízes não costumam sequer respeitar as leis, não fosse assim, os recursos não prosperariam; por essa lógica, podemos afirmar que de agora em diante, todos são culpados até que se prove o contrário, invertemos uma lógica garantista, rompemos com postulados seculares em nome da proteção social, ou seja, qualquer coisa justifica o “interesse público”, porém, não fico tão animado, em nome de Deus e da proteção social já se praticou as maiores barbáries pela historia.

Esse julgamento terá desdobramentos, a história nos mostrará.

Voltemos para o carnaval.





12 Fevereiro, 2012

Resta-me pouco tempo

Retorno de uma consulta médica esta semana com um triste diagnóstico, meu estado é grave, terminal, tenho pouco mais de 40 anos de vida pela frente, no máximo 50 se me cuidar.

Após a surpresa da notícia, como meu tempo é curto, ponderei quais providências urgentes devo tomar, quais serão minhas prioridades de agora em diante, até que o anunciado momento se apresente, então, resolvi enumerá-las:

Primeiro, resolvi dar destino melhor ao meu patrimônio, de agora em diante andarei mais de motocicleta e desprezarei com afinco o automóvel, prefiro o vento no rosto desprotegido, que a artificialidade do ar em segurança; da mesma forma, dormirei mais de janelas abertas e me preocuparei menos em trancar as portas, afinal, não há nada que possam levar que o tempo já não leve.

Assim, também, seguindo a mesma lógica, deixarei me envolver um pouco mais por sorrisos fáceis e desconfiarei um pouco menos das pessoas; com tão escasso tempo pela frente, qual a importância tem a diferença entre ser querido ou amado por meus convivas.

Preferência na fila só para os amigos; mulher, filhas, mãe e familiares devem entender, o pouco que me resta não pode ser gasto com tricas e futricas domésticas, porém, há uma única ressalva nesse ponto, todos ganham prioridade quando o assunto versar sobre amor, alegria ou gerar boas gargalhadas.

Prosseguindo em minhas últimas medidas, como prioridade, contratarei uma empresa especializada em atendimento a reclamações, este call centre será responsável por solucionar os pequenos pleitos do dia a dia, assim, deixarei de perder tempo discutindo lâmpadas queimadas, seguros, contas indevidamente cobradas ou qualquer outra relação conflituosa que atrapalhem o amor, a alegria e as boas gargalhadas.

Resolvi também, que devo deixar alguma marca de passagem pela vida, portanto, trabalharei e estudarei cada vez mais nesses últimos tempos, todavia, não admitirei nenhuma atividade que entre em conflito com todas as outras decisões.

Simples medidas serão importantes para mim: brindarei, falarei e comerei mais e melhor, sempre com alguém que esteja disposto a repartir emoções e experiências de sua vida; também já está decidido, não perderei tempo com qualquer tipo de preparação física, afinal, se me resta tão pouco, porque perder tanto tempo endurecendo um corpo para que seja consumido pela terra.

Serei fiel a uma só ambição: toda alegria do mundo deverá ser conquistada e consumida, não guardarei nem um pouco para depois, não serei surpreendido pelo ocaso com nenhum patrimônio emocional escondido na gaveta de carnês e prestações.

Por fim, nada de textos longos ou complicados, darei preferência as frases e intervenções diretas, claras e sem dupla interpretação ou sentido, não tenho mais tempo a perder, afinal, resta-me pouco tempo, no máximo 40, com sorte 50 anos pela frente.



10 Fevereiro, 2012

Carta a “D. Estela”

Permita-me ser um intrujão nessa conversa de gente especializada, entretanto, para ser fiel aos meus princípios, que larga o sarrafo no Alquimim quando invade a Cracolândia como quem ocupasse a Linha Maginot francesa; ou que acusa de homicídio qualificado as “brincadeiras” de tiro ao alvo (sniper) do BOPE durante operações nas favelas do Rio de Janeiro; também não poderia deixar de aportar o meu dedo em sua direção.


“D. Estela”, a senhora bem sabe que toda forma de protesto implica em certa desarrumação da casa, dito de maneira mais formal, tirar o poder da sua zona de conforto para obrigá-lo a tomar decisões, de certo não convenientes, senão, já teriam sido consideradas e procedidas de antemão, assim, sempre há um viés de trauma que dificilmente não é atingido em qualquer agir reivindicatório; desse modo é que se manifesta todo movimento grevista, de certa forma traumático, desconfortável e desarrumador do status quo, principalmente quando deflagrada no seio do poder público, porém, muitas vezes necessário para se atingir negociações relevadas e relegadas para um dia seguinte, que por vias burocráticas não costuma chegar.


Imaginar uma greve sem causar o mínimo de transtorno e prejuízo ou é ingenuidade ou com o perdão da palavra, burrice mesmo, coisa que a senhora não é em nenhuma das duas situações adjetivadas, até porque, com sua formação militante, como poucas conhece o poder da “paralisação dos meios de produção” como instrumento de pressão para a conquista de reivindicações oriundas das relações de trabalho.


Por outra ótica, enveredar pelo discurso fácil e demagógico de que existem setores, serviços e funções, que por serem “essenciais” não podem paralisar suas atividades, também não lhe cairia bem; essa fala remete a algumas reflexões sobre essencialidade do trabalho, ou seja, tirando os artesãos do centro da cidade, camelôs, flanelinhas, aposentados e outros poucos mais, de atividade não tão “necessárias”, fica a pergunta: quem ou o que não é essencial numa sociedade complexa?


É certo, que ao contrário do Corpo de Bombeiros, os policiais civis e militares não gozam lá de grande carinho e admiração por boa parte da população; diversas vezes extorquida e desamparada por essas forças públicas, a sociedade vê-se nessas horas diante da “cruz e da caveirinha”: apoiar reivindicações justas e necessárias, ou aproveitar dessa deslegitimidade para depurar ressentimentos; mesmo aqui vai um comentário leniente: quem nunca ouviu falar de médicos que vendem prótese sem necessidade, de advogados que negociam o direito de seus clientes, de dentistas que obturam o mesmo dente várias vezes sem necessidade, engenheiros que constroem prédios com areia de praia e assim vai, longa é a lista, todavia, não podemos prescindir dos bons, ainda que sejam poucos, também não merecem o desrespeito pelo negativo legado de seus pares de profissão.


Enfim, causa espanto cotejar sua biografia política, sua prática e fala atual diante da greve dos Policiais Militares da Bahia (e de outras que parecem surgir), reproduzo pontualmente, algumas frases, que se for o caso, aceito a crítica de uma descontextualização, porém, vindo da boca da senhora tornam-se estranhas e contraditórias face sua formação militante: 1) "Se anistiar, aí vira um país sem regra"; 2) "Não concordo em alguns casos, de maneira alguma, com processo de anistia que parece sancionar qualquer ferimento da legalidade, não concordo e não vou concordar"; 3) "Não considero que aumento de homicídios na rua, queima de ônibus, entrada em ônibus encapuzados, sejam uma forma correta de conduzir o movimento"; e 4) "Há outros interesses envolvendo toda essa paralisação".


“D. Estela”, ombreio-me as suas palavras, também não acoberto a extorsão como instrumento de pressão, todavia, diferentemente da senhora não acredito em tudo que passa pela grande mídia nacional, até porque, a senhora bem sabe, que boa parte do que se apresenta por lá costuma passar primeiro pelos gabinetes de seus aliados antes da divulgação, que dão o tom necessário para cada ocasião.


Prezada “D. Estela”, creio que já balizei o caminho que pretendia percorrer, falar mais seria chover no molhado, a interpretação, portanto, é livre e fica a seu cargo, entretanto, gostaria de encerrar essas mal traçadas linhas com a lapidar conclusão de Mikhail Bakuniun: "Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

05 Fevereiro, 2012

Inabilidade diplomática


Por vezes insistimos em determinadas críticas, a tal ponto que em reflexão passamos a questionar nossas próprias convicções; será que realmente nossa fala está coerente, é verdadeira, está sendo inteligível?


Por honestidade e sinceridade, nossas análises, devem sempre estar sujeitas a questionamentos, isso porque não raramente podem estar contaminadas de subjetividades, que mais se afinam a posicionamentos ideológicos, o que leva ao risco de se transformar em meros discursos panfletários.


Todavia, quando lemos um artigo de outra pessoa, de quilate reconhecidamente respeitável, voltamos a ter um pouco mais de tranquilidade por sabermos que no mínimo não estamos sós, muito menos mal acompanhados.


A análise técnica de um diplomata de carreira como Marcos Azanbuja, que comunga daquilo que em relações internacionais se chama de "realismo", sempre é bem vinda e desmonta as antíteses de nossos posicionamentos, posto estar construída em valores que ultrapassam nossas meras especulações subjetivas; é a análise técnica de um profissional experiente em relações internacionais.


Um aparte: deixo bem claro para todos em tudo que escrevo sobre o tema, que embora reconheça grandes vitórias, meu respeito pela Revolução Cubana há muito tempo se foi, para mim esta perdeu sua legitimidade quando passou a comportar práticas idênticas as daqueles que são condenados pelo proselitismo da família Castro em praça pública, em intermináveis discursos vazios de validade e carregados de uma ética que só serve para os outros, ou seja, o mundo inteiro está errado, devem fazer o que dizem, porém, deixam de dar o exemplo com ações internas.


Não aceito que uma pessoa seja impedida em seu direito de pensar e se expressar, tentar convencer e dar seus argumentos, ir e vir quando bem quiser e que por essas simples vontades inalienáveis, tenha que pagar com sua liberdade o preço do convencimento oficial. Nesse ponto faço uso das palavras de Yoani Sánchez, que sente na pele as quase duas dezenas de negativas de sair de seu país para debater com o mundo o que por lá acontece: “Me siento como el rehen secuestrado por alguien que no escucha, ni da explicaciones. Un gobierno con pasamontanas y pistola al cinto”.


Pois bem, mas não é esse o propósito do post, não pretendo me alongar em discutir aqui as várias criticas que faço sobre o regime da família Castro, em outro momento volto a levantar a antiga bandeira que um dia já expressou uma vontade popular “Cuba Libre”, por agora, o propósito é simplesmente apresentar um texto que li e gostei e reparto com os amigos.


"Teria sido melhor se a presidente da República não tivesse ido agora a Cuba. Criou-se, para ela, uma situação para a qual mesmo a mais atenta diplomacia não encontraria uma solução satisfatória.


Como chefe de uma das grandes democracias mundiais, Dilma Rousseff fala e age com a legitimidade de quem chegou ao poder pela vontade do povo e com prazos definidos - medida sua vitória com a exatidão e a transparência dos votos bem contados -, e seu compromisso com a defesa dos direitos humanos tem sido reafirmado, com clareza, em diversas ocasiões.


Por outro lado, as etapas iniciais de sua trajetória política e as alianças que foram tecidas em sua volta por seus correligionários e aliados a colocam em uma posição em que uma medida de fidelidade, ou pelo menos de ampla tolerância, com o regime cubano é incontornável.


Não era possível, assim, que chegasse ao aeroporto José Martí, em Havana, e ali fizesse declarações que representassem uma censura pública às práticas do governo local no terreno dos direitos humanos e à vocação desse regime para eternizar-se no poder, o que já acontece há 52 anos. Não seria realista esperar que isso pudesse acontecer.


Não me parece impróprio que enviemos, com a frequência que se fizer necessária, missões de alto nível a Cuba. Identifico ali importantes interesses econômicos e comerciais brasileiros e não é difícil ver as oportunidades que se oferecem para que algumas de nossas grandes empresas consolidem e ampliem sua presença na ilha. Ajudá-las é um objetivo que se justifica com naturalidade e que faz parte das regras aceitas do jogo internacional.


Teria sido apropriado, no entanto, não colocar Cuba agora no circuito da nossa diplomacia presidencial, atividade em que os nossos três governantes mais recentes atuaram quase sempre com propriedade e sucesso. Para promover interesses econômicos temos, dentro da nossa frondosa orquestra ministerial, vários titulares de pastas que sem qualquer problema podem ser mobilizados para agir na promoção de nossos interesses setoriais e específicos.


O objetivo deveria ser o de preservar nossos governantes, hoje cercados de grande prestígio e visibilidade internacionais, de visitas e encontros com interlocutores que pretenderiam aproveitar o momento de sua presença para obter uma visibilidade e uma credibilidade que normalmente estariam fora de seu alcance. Na sua mais recente visita à America Latina, Ahmadinejad já não colocou Brasília em seu roteiro, e essa exclusão foi interpretada internacionalmente como um sinal de que a presidente do Brasil pretende manter umas distância mais prudente do líder iraniano.


Houve tempo - e isso faz pouco tempo - em que nossos governantes viajavam para buscar empréstimos. Hoje, em vários casos, somos nós que fazemos empréstimos financeiros e, em uma outra dimensão da palavra, são os nossos mandatários que emprestam seu prestígio a governos e governantes desacreditados.


A visita a Cuba poderia ter sido realizada sem a presença da presidente Dilma Rousseff, que ficou inibida de dizer aquilo em que acredita e que corresponde à nossa adesão, não questionada, a valores universais que são desrespeitados pelo regime cubano.


Fez, ao contrário, e sem hesitação, uma condenação veemente da infâmia que tem sido a prisão de supostos terroristas na base de Guantánamo, enjaulados há vários anos, em muitos casos sem qualquer julgamento, o que constitui uma violação flagrante de seus direitos e uma mancha na reputação dos Estados Unidos.


A crítica ao que acontece em Guantánamo teria tido mais repercussão e seria mais equilibrada se fosse acompanhada de uma condenação não menos veemente a um governo autoritário e de um só partido, como é o cubano, e que controla, entre outras coisas, a liberdade de ir e vir de seus cidadãos.


O início ao mesmo o tempo romântico e heróico da revolução cubana deixou no Brasil uma reserva de afeição e uma imagem libertária que mais de meio século de uso abusivo do poder e a correspondente supressão das liberdades civis não conseguiram completamente erodir.


Sem a legitimidade que só a governança democrática confere e com uma longa história de desacertos na gestão da economia, o que o governo cubano soube cultivar foi a idéia de que sua legitimidade vem da resistência tenaz às ameaças políticas e ao bloqueio econômico dos Estados Unidos. Não existiria, assim, uma Cuba vista em si mesma, mas sim e essencialmente o imaginado baluarte contra os Estados Unidos. Não se é, a rigor, pró-cubano, mas sim e furiosamente antiamericano.


Talvez isso fique mais claro ao nos darmos conta de que não há entre nós e de maneira expressiva um culto à antiga União Soviética nem à China maoísta, matrizes da Cuba atual, mas o apoio ao esclerosado regime cubano perdura intacto e sempre na medida, que é essencialmente um símbolo da hostilidade a Washington.


A lição a aprender é que, em diplomacia, muitas vezes a escolha de um itinerário errado determina, mesmo antes de uma viagem, o que provavelmente vai acontecer. Não se vai a Teerã impunemente. Prestigiar Chaves em Caracas tem seus riscos. Uma visita a Cuba tem seu preço. Nesses como em outros casos trata-se de países à espreita de visitantes qualificados para fazer pagar, direta ou indiretamente, um tributo às políticas falidas que representam."


Marcos Azambuja é embaixador, ex-chefe da delegação do Brasil para assuntos de desarmamento e atual vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais
(Publicado em 05/02/2012 - http://www.estadao.com.br/noticias/geral,dilemas-da-diplomacia,831517,0.htm)





29 Janeiro, 2012

As escolhas e seus preços

O quanto podemos fazer, o quanto queremos fazer e o quanto podemos mudar tudo em nossas vidas, muitas vezes está no tamanho de nossas ambições ou na disposição de sair de posições de conforto, porém, isso implica num preço a pagar.


Por que falar em voar, se é mais fácil ficar sentado, olhando, esperando a vida passar; por que se arriscar e expor a vida, se a vida é mais fácil e tranquila longe dos holofotes e responsabilidades.


Compartilho com os amigos do Blog, nesse domingo chuvoso, o texto do Luiz Fernando Veríssimo “o homem que voa”. Bons vôos ou boa novela.

Geraldo e Marina estão casados há 15 anos. Uma noite - os dois sentados no sofá da sala assistindo à novela - Geraldo diz:
- Marina, preciso te contar uma coisa.
- O que, Geraldo?
- Eu voo.
- Você o que, Geraldo?
- Eu posso voar.
- Que loucura é essa, Geraldo?
- É verdade. Descobri quando eu tinha uns 11 anos. Se eu quiser, posso sair voando agora mesmo.
- Geraldo, para de dizer bobagens e deixa eu assistir à novela.
- Você não acredita? Então olhe só.
E Geraldo decola do sofá, dá algumas voltas por dentro da sala, sai pela janela aberta, circunda o prédio da frente, volta e senta de novo no sofá.
Marina desmaia.


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Já restabelecida, Marina pergunta:
- Por que você nunca me disse nada? Por que esperou até agora para me dizer?
- Eu queria ter certeza que o nosso casamento era sólido. Que você não se apavoraria com a revelação, que acabaria se acostumando com ela. Achei que depois de 15 anos não havia mais perigo de você sair correndo.
- Mas você nunca falou pra ninguém que pode voar? Nunca contou?
- Não. Na escola, eu já era meio esquisito. Se descobrissem que eu também voava, não iam largar do me pé. Meus pais também se assustariam. Você é a primeira pessoa a saber.
- Mas Geraldo... Todos precisam saber que você voa. Você é um fenômeno da Natureza! Um caso único. Tem que ser examinado pela Ciência...
- Deus me livre.
- Nós podemos ganhar dinheiro com isso. Você virará uma celebridade internacional. Se apresentará em shows. Já posso até ver você chegando no palco pelo ar e...
- Tá doida. A coisa que eu menos quero no mundo é atrair atenção.

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- Quando é que você voa? - pergunta Marina.
- Às vezes, de noite, quando você está dormindo, eu saio pela janela e sobrevoo a cidade. Com a lua cheia, é bonito.
Marina (sentida):
- E você nunca pensou em me levar junto para passear ao luar, como o Super-homem fazia com a mocinha no filme... Geraldo! E se você for o novo Super-homem?! Um Super-homem de verdade? Você pode ser o herói que o mundo está esperando.
- Eu, Super-homem, com esta cara, com este físico, com esta gastrite crônica? Não, obrigado. Prefiro continuar como técnico contábil, com a minha vidinha de sempre.
- Mas Geraldo...
- E você tem que jurar que não vai contar pra ninguém, Marina. Jura.
- Está bem, Geraldo. Eu juro.

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E os dois continuam com a vidinha de sempre. De vez em quando ela faz um pedido, como:
- Bem, uma lâmpada do lustre queimou. Você pode trocar pra mim?
E o Geraldo voa até o teto, muda a lâmpada do lustre e volta para o sofá. E os dois continuam vendo a novela.

28 Janeiro, 2012

Uma mera troca de dominação (ou muitas aspas em pouco texto)

A Primavera Árabe, como ficou conhecido o movimento de “libertação” dos povos daquela região, teve como “cereja do bolo” a retomada do poder pelo “povo” da Líbia das mãos de Muammar Kadhafi.


Na “virada de jogo”, acompanhada on-line pelo mundo, não faltaram componentes tecnológicos, desde mobilizações populares através da internet, novo componente que “globalizou” a difusão de assuntos locais, bem como, articulou a rede de resistência ao ditador, até a participação de forças internacionais de “paz” e “solidariedade” às populações que rompiam as correntes de um cruel regime, acusado de seqüestrar, torturar e matar seus opositores.


A opinião publica internacional foi “mobilizada” ou fabricada conforme os interesses dominantes da mídia ocidental, todavia, é quase impossível se encontrar alguém que tenha formado essa opinião “mediana” através desses veículos e saiba informar com precisão quais os componentes de luta que estavam em jogo, quais os interesses estavam sendo contrariados, o que se pretendia além da “redemocratização” dos regimes – termo de vasta interpretação e subjetividade, que confunde-se com o próprio conceito de democracia.


Pois bem, passada a fúria inicial da “onda renovadora” na região, em recorte, verifica-se que na Síria, os militares que assumiram “provisoriamente” o poder, são tão cruéis e autoritários quanto seus antigos detentores; quanto a alternância, inclusive, duvida-se das promessas de realização de eleições a “curto prazo” conforme compromisso do “governo de coalizão” (leia mais aqui); da mesma forma, na Líbia, o que se instaurou foi um regime “libertado”, porém, que ainda vale-se de práticas de seu antecessor verdugo, assim denunciam as Organizações Não Governamentais (ONGs) que por lá atuam, como por exemplo, a Amnesty International – Anistia Internacional (leia mais aqui).


Corroborando essas denúncias, agora chegou a vez dos Medecins Sans Frontieres – Médicos Sem Fronteiras – “botarem a boca no trombone”, dando conta que além de serem proibidos de atender determinados prisioneiros, outras pessoas estariam sendo encaminhadas aos seus cuidados após saírem das seções de torturas, que se multiplicam contra antigos detratores, membros do regime deposto, ainda, que outras são levadas aos postos médicos para serem atendidas somente para terem condições de continuar a serem submetidas a uma nova série de “interrogatórios”, o que vem sendo considerado “inaceitável” pela ONG médica e deve levá-la a abandonar as prisões daquele país (leia mais aqui).


Essas reflexões nos remetem ao título do post, afinal, pelo que se configura e observa, a “libertação” daqueles povos se revelou algo próximo de uma mera troca de dominação, coisa parecida como trocar “seis por meia dúzia”, ou a jocosa constatação de que de “pato a ganso, tudo é marreco”, afinal, na prática, tanto os depostos como os ascendidos valem-se dos mesmos métodos de controle e segurança de sua população.


Desta narrativa fica em suspenso a pergunta, que ao final tento responder: onde foi que se errou, ou melhor, como se poderiam evitar esses erros? Não sei se a resposta é tão clara, ou mesmo se teria condições de dar um diagnostico tão preciso, porém, já durante os protestos e combates se desenhava “uma crônica de uma morte anunciada”; se por um lado a participação popular, como em todo processo revolucionário é indispensável e fundamental, sob pena de se descaracterizar o movimento configurando-se mero golpe de estado, portanto, sem povo não há revolução, por outro, a história prova que não raramente os movimentos populares “voluntariosos” são usados pelos mais ardilosos para a conquista de Estados.


Atrevo-me em afirmar, que não basta a participação popular nos momentos iniciais dos movimentos de insurreição, como empunhadores de bandeiras e armas, franco atiradores, ou simplesmente “buchas de canhão”, creio que a verdadeira redemocratização se dá a partir do momento em que os concernidos, envolvidos interessados no processo, participam de todo o processo político transformador, do início ao fim, da discussão dos destinos almejados, sua preparação, atuação política e armada quando é o caso, composição do poder, formulação de políticas, sua aplicação e permanente fiscalização. De certo não é o que se vê na região “pós-primavera”.


Pelo que se pode notar, a tal “libertação” na região mais parece uma “troca de senhores” ou “troca de grilhões”, isso porque, enquanto “massa de manobra” o povo atendeu bem aos anseios de espertos usurpadores do poder, que percebendo a necessidade de mudanças exigidas pela população, aproveitaram-se até onde lhes era interessante dessa mobilização, entretanto, diante da fragilidade de organização e falta de discussão acumulada, geradora de um consenso final do pretendido, lançaram mãos das rédeas e condução das revoluções, a princípio popular, porém, transformando-as em instrumento de golpes de estado.


Não vejo grandes mudanças nos meses que virão, inclusive, temo que o processo se agrave e se afaste cada vez mais dos iniciais discursos “libertadores”, ou para atender a interesses privados em âmbito local e regional, ou para satisfazer e tranqüilizar alguns “aliados” internacionais, aflitos com possíveis ascensões “fundamentalistas”.


Em suma, embora com novos atores em cena, parece que o texto da peça encenada seja o mesmo e seu desfecho já conhecido por uma desencantada platéia; ainda que com algumas modificações no roteiro ou direção, os atos se repetem na troca de cenários reconstruídos para novas exibições, todavia, todo anúncio da “grande estréia” não passa de uma mão de tinta aplicada sobre um surrado pano de fundo de um velho teatro, cujo dono insiste em enganar o incauto público, cobrando bilhetes para aplausos de estórias já conhecidas e mal contadas.

17 Janeiro, 2012

O futebol e os Imperativos Categóricos de Immanoel Kant

"Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza".

"A máxima do meu agir deve ser por mim entendida como uma lei universal, para que todos a sigam".

"Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca apenas como um meio".

Interessante olhar o futebol através do olhar filosófico, ainda que seja sobre uma simples entrevista.

Observando o “chororô” da mandatária flamenguista, Sr. Patrícia Amorim, durante sua coletiva à imprensa ontem a noite, pode-se observar que há no mínimo uma contradição performativa no seu comportamento, ou seja, aquilo que a dirigente fala e critica, não corresponde às práticas usuais no seu mandato e, muito menos na própria história de seu clube.

Comecemos “do início”, lá no momento de fundação do departamento de futebol do clube de regatas flamengo – permito-me, como fanático Tricolor, nunca usar letras maiúsculas em nomes impróprios. Pois bem, como diria o personagem de Chico Anísio, “Pantaleão Pereira Peixoto”, sucedeu-se lá em 1912 todo início de nossa história, o Fluminense, Campeão Carioca de 1911, pela quinta vez desde o início do campeonato do Rio de Janeiro, ao final do torneio teve seu time assediado pelo então somente clube de regatas flamengo, que através de várias promessas e artifícios, arrematou nove jogadores do Fluminense do time principal para sua legião, fundando assim seu departamento de futebol.

Já ouvi algumas bobagens do tipo: “filho do Fluminense”, “origens tricolor” etc., mas que nada, discordo veementemente, quando muito o vejo como um bastardo, irreconhecido, não por falta de dever paterno, mas por algo próximo com o que hoje chamaríamos de “golpe da barriga”; assim, nossas origens são bastante diversas: por um lado o Fluminense, fundado por Oscar Cox, trazido da Inglaterra para o Brasil, através do mais fiel espírito esportivo, dentro do diapasão do seu próprio hino que entoa, “usando a fidalguia”; por outro lado, o surgimento de um departamento de futebol criado a partir da apropriação indébita, da dissimulação e daquilo que tanto “dona” Patrícia Amorim exige, da falta de ética.

Surgem assim nossas primeiras rivalidades e diferenças; recordando nosso filósofo moderno: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza", ou seja, não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você.

Mas os “deuses do futebol” foram justos, vingaram o Tricolor das Laranjeiras já no primeiro confronto entre os dois clubes, quando em 7 de julho de 1912, os reservas do Fluminense, a exceção de dois fieis guerreiros que permaneceram, promovidos em razão da usurpação narrada, venceram por 3 X 2 os jogadores (titulares) ex-campeões do certame de 1911 – “ex”, porque eles se foram, mas o título permaneceu com o Fluminense.

Voltando aos dias presentes, podemos observar e cotejar um pouco mais o discurso da “dona” Patrícia.

Popularmente consagrado versa o ditado: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, daí destaque-se alguns pontos da entrevista coletiva e aplique-se a sabedoria popular a prática usual do time da Gávea:

A dirigente acusa o Tricolor que, “pelo que se sabe, está atravessando a negociação em cima de um poder financeiro muitas vezes inflacionando o mercado e acho que é um desserviço ao futebol”. Ora, “dona” Patrícia, atém onde se sabe, não existe acordo nenhum fixado entre os clubes no país, estabelecendo um teto salarial ou de valores à compra de direitos dos jogadores; particularmente, até considero um absurdo que o futebol consiga promover mais riqueza que o conhecimento científico ou trabalhos de dimensão tecnológicos mais avançados, todavia, dentro do liberalismo selvagem do sistema, não há ruptura com qualquer regra do jogo.

A propósito, bem se pode lembrar na história recente, ainda na gestão Patrícia Amorim, foi “repatriado” o jogador Ronaldinho “Gaúcho”, bem como pretende (?) o jogador Wagner “Love” e mesmo cogitou o retorno do “imperador” Adriano, entre outros, é de sabença que em todas essas negociações, se discute valores na órbita de milhões de dólares; mesmo a questão do Thiago Neves, o clube patriciano estaria disposto a pagar semelhante valores, entretanto, como não tem dinheiro para ajustar os compromissos mais urgentes (luz, telefone, direito de imagem e salários dos demais jogadores), buscou parcelar em prazo maior, aquilo que a presidenta chama de “inflação”.

Portanto, vale lembra o segundo imperativo categórico kantiano: "A máxima do meu agir deve ser por mim entendida como uma lei universal, para que todos a sigam", em outras palavras, a minha maneira de agir deve ser o modelo para todos os demais.

Ainda, “dona” Patrícia Amorim diz que o clube que dirige, “trabalha de uma forma honesta, clara e ética, se nem todos trabalham assim, paciência, que Deus os perdoe” e que, “o flamengo é correto, o flamengo é decente, a gente procura fazer uma coisa de uma forma que respeitemos os coirmãos apesar das disputas”. Não pretendemos discutir a ética, a transparência, todavia, duvidamos da honestidade usual do clube rubro-negro, até porque não são tão claras as negociações do “indignado” com a Rede Globo, como também não foram aquelas que retiraram o Ronaldinho do Grêmio no ano passado e, muito menos, há dados seguros para se afirmar de honestidade no episódio do que foi chamado pela imprensa de “escândalo das papeletas”, envolvendo o Léo Rabello, então dirigente flamenguista, na suposta compra de árbitros, assim, para todas essas questões restam os noticiários e as pesquisas no Google, cada um que tire suas conclusões; inobstante, é bom lembrar que várias vezes o flamengo “atravessou” não só negociações envolvendo o Tricolor, como também, já foi buscar jogadores de base dentro dos gramados do Fluminense, mas isso a “dona” Patrícia não se recorda, mas deixa pra lá, afinal, há outro dizer popular que bem ilustra a situação: “que bate esquece, quem apanha, nunca esquece”.

Finalizando com o terceiro postulado kantiano: "Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca apenas como um meio", ou, não use o outro como instrumento que atenda somente as suas necessidades, mas que o outro sirva da mesma forma que você servirá a propósitos comuns, onde não haja vencedores ou vencidos, mas comuns e respeitados ganhadores.

Desde o final do ano, o flamengo não tem dinheiro para honrar seus compromissos, isso é fato notório; seus patrocinadores não acreditam no retorno de grandes investimentos; a Traffic não gostou muito de ver mais um patrocínio na camisa do clube e não participar nos lucros como combinado; o BMG não quer correr o risco com um time que promete muito, mas ficou aquém do esperado no ano de 2011, e assim vai. A questão é que o flamengo, “ético”, “claro” e “honesto’ da “dona” Patrícia não aceita que alguém possa fazer o que ele não faz; ora, sem contrato desde o final da temporada, assediado por outros clubes no mercado – o São Paulo inclusive enviou proposta para os árabes – Thiago Neves não poderia, nem deveria, ficar a mercê da disponibilidade de caixa do flamengo por prazo indeterminado, ou como querem seus dirigentes, até vencer os detentores de seu passe por insistência ou cansaço.

A permanência de Thiago Neves no Rio de Janeiro é vitória para o para o Fluminense, como também para o futebol do Estado, obviamente, que manter o jogador no Brasil, num clube com reais chances num torneio internacional é mais que salutar, ainda que não se espere que o pessoal da Gávea venha a aplaudir a mudança de camisa do jogador, porém, a crítica que se faz a posição da presidente Patrícia é que não se deve usar de um discurso falacioso e montado sobre críticas infundadas, para justificar a incapacidade administrativa, financeira e negocial de sua gestão, diante de seus desavisados torcedores.

11 Janeiro, 2012

Jornais de férias nos provocam palavras

A perseguição aos fluxos migratórios é algo que se alastra pelo mundo, cada vez de forma mais contundente, e por via da normatização intra-estatal, esconde-se o potencial segregário e discriminatório, num mundo que não está disposto a pagar a fatura da exploração realizada por séculos através do colonialismo, principalmente pela sua banda ocidental.

Muitos se assustaram com a política de Silvio Berlusconi, quando em 2009 através do parlamento, aprovou o uso de milícias para “rondas populares” na caça aos clandestinos em solo italiano e deportações sem o devido processo legal; o premier italiano, à parte todo seu nocivo potencial ideológico, não era uma andorinha em vôo solo provocando um verão mediterrâneo, mas sim, seguia uma política que se firmava não só na Europa, mas em outros cantos do mundo.

França, Alemanha, Inglaterra, toda Europa de uma maneira geral, já havia imposto um boicote ao trafego de pessoas desqualificadas economicamente; na era da globalização, o que os “desenvolvidos” aceitam é a circulação de moedas, bens de consumo e riquezas, fora isso, como bem anuncia o cancioneiro popular nacional, “cada um no seu quadrado”.

Agudizando-se pelo planeta, o movimento de contenção humana agora mostra sua face em terras israelenses, incrível paradoxo de um povo que tem na formação da sua história exatamente a prática circulante à procura de um espaço para sobreviver; negando suas origens exódicas – afinal, foram pelo menos quarenta anos peregrinando pelo deserto, perseguindo as promessas de um Deus anunciador da “terra que mana o leite o mel”, isso sem contar outros milhares de anos na busca de reconhecimento de um Estado judeu, conquistado somente na segunda metade do século passado, por um lado, como verdadeiro pedido de desculpas pelo holocausto da Segunda Guerra e, por outro, através da decisão internacional de abrigar dois povos antagônicos em um só território, não importando as conseqüências que daí se apresentou – Israel aprovou uma lei para conter os imigrantes africanos, que em desespero abandonam suas misérias regionais, não na busca de uma terra prometida, mas de mínimas condições de sobrevivência.

A “Lei Contra a Infiltração”, aprovada pelo parlamento israelense, estabelece penas de prisão de até três anos para os imigrantes ilegais, sem que seja necessário a formalização do devido processo legal, meio reconhecido internacionalmente como única fonte legítima à aplicação de pena restritiva da liberdade. Ou seja, o ato migratório em solo israelense é passível de sansão administrativa e tem como preceito secundário a prisão, sem a garantia da ampla defesa por parte do “condenado”.

A nova legislação não faz qualquer distinção entre imigrantes ilegais e refugiados de áreas de risco que, de acordo com as leis internacionais, têm direito a um pedido formal de asilo político. A lei também permite que o Estado aplique uma pena de prisão perpétua a ilegais que cometerem crimes em Israel”. (O Globo), inobstante, Israel já estar patrocinado a construção de uma cerca de separação com o Egito com a extensão de 250 quilômetros.

De forma bastante branda, o Brasil também vem embarcando nesse processo de limitação de entradas, é o caso mais recente da aceitação de haitianos (g1.globo), registre-se porém, comparado a outros países, o laxismo da legislação alienígena pátria, ainda que suas origens remontem ao período da ditadura; aguça-se a memória para lembrar das contundentes críticas por que passou a Lei 6.815/80, na ocasião, apontada como “dura”, porém, hoje diante das demais legislações mundiais, se apresenta como uma das mais flexíveis, isso sem se considerar a anistia concedida em 2009 através da Lei 11.961, que beneficiou algo em torno de 50 mil estrangeiros que viviam irregularmente no país, como também, a legislação de permanência decorrente do Tratado dos países do Mercosul.

O caso específico de Israel nos leva a uma reflexão mais geral. A questão que se impõe é que há um preço a pagar, por séculos de uma política de exploração e exclusão que vinga até nossos dias, porém, que nunca considerou as conseqüências que um dia iriam brotar, ou nas palavras de Hardt e Negri, há uma Multidão sujeita a um apartheid global, que, todavia, busca sua cidadania global, entendida como, “poder do povo de se reapropriar do controle sobre o espaço e, assim, de desenhar a nova cartografia”.

Por sua vez, em sua obra de 2001, “A constelação pós-nacional”, Jürgen Habermas, afirma que “apesar das rígidas regulamentações da imigração (e, no caso, inconstitucionais) que trancavam o forte da Europa, todas as nações européias encontravam-se entrementes a caminho de uma sociedade multicultural. É evidente que essa pluralização não se dá sem atritos”.

Novamente, a questão presente é a necessidade da realização de uma cidadania construída através do direito dos povos, entendendo que “não pode ser suprimido o direito dos cidadãos do mundo de procurar estabelecer relações comuns com todos e, para tanto, visitar todas as regiões da Terra” (Kant).

Não há porque duvidar que uma identidade global esteja em construção, apesar de toda resistência que se impõe ou se tente afirmar, todavia, a mera constatação do trânsito de informações em rede já permite tal conclusão; da mesma forma, as dimensões planetárias diminuíram e as linhas imaginárias que separam fronteiras não são suficientes para limitações culturais e de pessoas, a falta de permissão – visto – não se mostra suficiente para impedir a imigração ilegal; por sua vez, legislações migratórias mais restritivas são evidências do ocaso que se encontram os Estados, que em fôlego de afogados, lutam contra uma facticidade imperativa. O que se indaga é como se configurará a ocupação do planeta nas próximas décadas e como se dará essa transição; mais que nunca, é necessário uma “política de reconhecimento” e saldo de débitos históricos, sob pena de não se avançando pelas vias dialógicas cair nas armadilhas dos discursos nacionalistas, com inevitáveis desrespeitos aos direitos humanos e conseqüências catastróficas à paz.

11 Dezembro, 2011

O tema sempre provoca polêmica, considerações desprovidas de fundamentação, conceitos extravagantes, envolvidos numa aura de mistério e misticismo, demonstrando que não sabemos bem quem são essas pessoas, que se reúnem para tratar de assuntos mais desconhecidos ainda.

Notadamente, algumas publicações, aqui e acolá, trazem alguns subsídios, porém, mesmo assim existe uma grande distância entre o que é fato e fantasia.

Pois bem, o jornal “Diário de Notícias” português, em novembro fez uma interessante matéria investigativa, traçando o grau de influência da maçonaria daquele país e seu trânsito pelos corredores do poder; ao todo foram quatro dias com variadas abordagens que terminou com uma mesa de debates.

Deixo o link para acesso as fotos das páginas da primeira matéria, quem tiver a curiosidade é só clicar aqui, sugiro depois de baixar, ir ampliando as imagens para conseguir fazer a leitura; as outras edições estão disponíveis na internet.

Em pleno século XXI, para alguns, na vigência de uma pós-modernidade, ainda subsiste uma organização moldada conforme valores do século XVIII, que por mais que se fale, poucos a conhecem.