Minhas opiniões e publicações, expostas neste espaço, são reflexões acadêmicas de um cidadão-eleitor, publicadas ao abrigo do direito constitucional da liberdade de expressão

"Por favor, leia devagar." (Ferreira Gullar)

26 junho, 2006

Um mito

A propósito do comentário do blogueiro de primeira Marco Aurélio, no post logo abaixo, onde manifesta sua preocupação com a possível vitória brasileira na Copa do Mundo, vir a influenciar no resultado eleitoral de outubro, indicando inclusive razões em um post de sua autoria que vale a pena ser lido, aproveito para ponderar de maneira diferente.

Marco Aurélio não é voz isolada em achar que o campeonato mundial pode vir a ajudar o operário-meu-patrão, já ouvi outras pessoas com a mesma linha de raciocínio, mas permito-me discordar analisando a história, através das Copas conquistadas e seus respectivos efeitos eleitorais.

Nossa primeira Copa foi conquistada em 1958, quando o Presidente da República eleito era Juscelino Kubitschek (PSD), para o período de 31/01/56 a 31/01/61. Juscelino não fez seu sucessor eleitoral o marechal Henrique Lott (coligação PTB/PSD), sendo eleito Jânio Quadros (UDN) para o período de 31/01/61 a 31/01/65, que em razão de sua renúncia, passou menos de sete meses na presidência.

Nossa segunda Copa foi conquistada em 1962, quando o Presidente da República era João Goulart (PTB), que cumpriu seu mandato entre 08/09/61 a 24/01/1963, sucedendo Jânio Quadros (UDN) após sua renúncia, vindo a dividir o poder por certo tempo com o Primeiro-Ministro Tancredo Neves (PSD). A conquista da Copa, portanto, não influenciou positivamente na continuidade no governo de Jango, que foi deposto pelos militares em 31/03/64.

Nosso tricampeonato foi conquistado em 1970, em plena ditadura militar, sob o governo do general Emílio Médici, governante no período compreendido entre 30/10/1969 e 15/03/74. Sem dúvidas a ditadura colheu frutos do campeonato mundial, que ajudou a mascarar o momento mais duro do período autoritário, as manifestações populistas/ufanistas que marcaram o governo do general Médici, entretanto, também não o ajudaram a fazer seu sucessor preferido, que era o general Silvio Frota, tendo que ao final compor e aceitar a indicação do general Ernesto Geisel, ligado à linha “castelista”, onde se encontrava Golbery do Couto e Silva.

A Copa de 1994, a quarta, foi conquistada durante o governo sucessório de Itamar Franco (PRN), período compreendido entre 02/10/92 e 01/01/95. Itamar ocupava a presidência face ao impeachment de Fernando Collor, este com mandato iniciado em 15/03/90. Itamar não tinha governo próprio, ou seja, sua composição representava uma coalizão de partidos para a “governabilidade” do país após a cassação de Collor. Este Presidente também não fez seu sucessor ideal, sendo vencedor no pleito seguinte ao seu mandato, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que embora apoiado “oficialmente” pelo Planalto, tinha em Itamar um de seus principais críticos, vale-se lembrar inclusive que em 1998, ainda no primeiro mandato de Fernando Henrique, ao assumir o Governo de Minas Gerais, Itamar Franco decretou moratória daquele Estado, brigou com o presidente do Banco Central Armínio Fraga, além de se posicionar contra as privatizações, sendo um verdadeiro adversário político de Fernando Henrique.

O “penta” foi conquistado em 2002, quando o Presidente da República em seu segundo mandato era Fernando Henrique (PSDB), período compreendido entre 01/01/99 a 01/01/03. Mesmo com a conquista da Copa poucos meses antes das eleições, não conseguiu fazer seu sucessor José Serra (PSDB), sendo eleito então o operário-meu-patrão (PT).

Portanto, observadas as datas de conquista dos campeonatos mundiais e a linha sucessória presidencial, pode-se verificar que somente o general Médici deu continuidade política e ideológica a um projeto de Estado, com a assunção de outro general, mas que nem era o seu escolhido e nem pensava como ele.

No mais, ou o povo sabe muito bem não misturar as coisas, política e futebol, ou ser campeão do mundo dá um baita azar para quem quer se reeleger.

4 comentários:

vera disse...

A Copa não deverá ser associada à política. Eu não creio que ela interfira nas eleições.:-) Bjs de fã

Nat disse...

Lula é teflon para o bem ou para o mal... nada gruda: nem mensalão nem Copa! hehehe

Ricardo Rayol disse...

Não achar que a máxima panis et circense vale para o Brasil é ser muito simplista. Não tenho dúvida que o disgramado de 9 dedos vai fazer um fuzuê se formos novamente campeões.

Serjão disse...

Também concordo. Não tem nada ver. O diversionismo no caso é econômico. Ninguem faz mais nada a não ser ver copa. E o poder público aplaude. Os impostos vão continuar a ser cobrados. Tenho vários amigos comerciantes, e Todos estão apavorados pois o país está parado. O que vc colocou lá no blog tem um questionamento. na sua faculdade os alunos que não estiverem satisfeitos com estas condutas podem questionar a direção e até mudar de faculdade. Na polícia federal é aasim mesmo, não tem como reclamar. É pegar ou largar. Claro que é cultural. Mas isso tem que começar a ser mudado a partir do poder público. Lembra que nos carnavais de antigamente quando na quarta de cinzas todos já estavam trabalhando? Hoje já não se trabalha a semana inteira. com o comprometimento da semana anterior.
Em tempo: Ótimos Posts