Minhas opiniões e publicações, expostas neste espaço, são reflexões acadêmicas de um cidadão-eleitor, publicadas ao abrigo do direito constitucional da liberdade de expressão

"Por favor, leia devagar." (Ferreira Gullar)

22 fevereiro, 2006

Educação


Volta às aulas

Cristovam Buarque*

Todos os anos, o Brasil retoma o ritmo depois do carnaval. Mas, todos os anos, a história do Brasil recomeça com a volta às aulas. Nesse dia, anualmente, recomeça a construção do futuro do Brasil e das suas crianças, em função da educação que elas receberão. Em janeiro de 2003, logo no início do atual governo, propus ao ministro da Comunicação Social que o presidente Lula aproveitasse a volta às aulas para fazer seu primeiro pronunciamento em cadeia nacional.
Sugeri que o presidente destacasse a importância daquele dia para o futuro de cada criança, especialmente daquelas que iam à escola pela primeira vez; que elogiasse os professores como os verdadeiros construtores da nação; que lembrasse às famílias que educação não se faz somente na escola, mas também em casa; que solicitasse aos meios de comunicação que se juntassem ao esforço nacional pela educação; e que declarasse que seu governo faria uma revolução no País, começando um grande salto na qualidade da educação básica.
Minha sugestão foi recusada, com o argumento de que não se deveria expor a figura do presidente em função de assuntos menores, para não vulgarizar sua presença na televisão. E não houve transmissão nacional. Posteriormente, presidente e ministros foram à televisão falar de pagamento da dívida ao FMI, operação tapa-buracos, transposição do rio São Francisco, cadastramento de aposentados. Muitos motivos têm justificado o uso da cadeia nacional para falar da coisa séria que é a economia, mas não há justificativa para falar de educação.
Em 2004, já afastado do Ministério da Educação e sem contato direto com o presidente ou seu ministro, repeti minha sugestão. De nada adiantou. Poucas semanas após a volta às aulas, o presidente Lula discursou em um evento organizado pelo Banco Mundial em Xangai, para o qual eu também fora convidado. Ouvi atento o discurso sobre a pobreza no mundo, e notei surpreso que a palavra educação não tinha sido pronunciada uma só vez. Considerando que podia ter estado desatento, pedi uma cópia do texto. Li com cuidado, e confirmei a ausência da palavra educação. O problema da pobreza era tratado como decorrência do protecionismo das nações ricas aos produtores agrícolas, e a solução estava no livre comércio.
Em 2005 voltei a fazer a mesma sugestão, e em 2006 faço-a outra vez. Porque se o dia-a-dia do Brasil começa depois do carnaval, o futuro do Brasil começa na volta às aulas.
Sem criança não há futuro; mas sem educação, o futuro não será satisfatório. Prova disso é que há 500 anos temos promovido a volta às aulas, mas seguimos com um presente insatisfatório em termos de desigualdade, violência, corrupção, falta de instituições políticas sólidas, destruição do meio ambiente, desarticulação das famílias, caos urbano. A forma como a educação de nossas crianças é relegada não é a única causa dos constrangimentos porque passa o Brasil, mas certamente é a principal das causas.
Nestas semanas, 40 milhões de crianças brasileiras deveriam estar voltando às aulas, em horário integral, com professores bem remunerados, bem preparados e dedicados, em escolas bem construídas e bem equipadas, com prefeitos motivados e metas que definissem a responsabilidade de cada um deles na construção do futuro do Brasil.Mas isso não vai acontecer. Parte dessas crianças nem sequer se matricularão, as matriculadas não freqüentarão as aulas com a assiduidade devida, as que freqüentarem encontrarão professores mal remunerados, desmotivados, não contarão com equipamentos necessários, os pais considerarão que a responsabilidade é daescola. Assim, a cada ano, em vez de iniciarmos o futuro do Brasil, faremos de conta que houve uma volta às aulas.
Certamente, o presidente não falará em cadeia nacional. Por isso, continuarei repetindo a sugestão, esperando que um dia um presidente acabe com o faz-de-conta da educação brasileira, passe a considerar a escola como o berço da Nação, vá ao rádio e à televisão falar do assunto e mobilizar o País pela sua construção.

*Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

9 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Pqp, asssuntos menores? imagino qual deva ser os maiores.

Alice disse...

Mas esperar o de um Presidente que não estudou ,como ele vai falar de uma coisa que desconhece .Eu imprimi o texto ,para mostrar ,amanhã no meu curso .
E ainda essa criatura quer se comparar a JK , me poupe .
JK teve uma mãe chamada Dona Julia ,uma mestra ( Professora por opção, por amor ), que tinha uma renda de 100 contos e gastava 80 ( oitenta ) com a educação dos filhos a Nána e o Nono ( JK ) .
Alias , muito triste pq , n~]ao estou assistindo mais , não consigo ficar acordada e as vezes esqueço de gravar .
Vou ali Ozéas ,ZzzzzzZzzzzz rs
Bom dia
Bjins

Vera disse...

Ozéas: mestre, parabéns pela escolha do artigo. :-) Bjs

Marcos disse...

Caro Ozeas,

A coisa é assim a educação pública no país vive de herois que no dia dia driblam as dificulades para dar aulas ou recebelas nas piores condições possíveis, mas mesmo assim não desistem...

Abçs

Marcos

Elaine disse...

Realmente excelente texto para o pré-carnaval!
Que o amigo e seus visitantes tenham um ótimo descanso nesse carnaval!
Até dia 01 de março!
Sds...Elaine Paiva

Gusta disse...

Sorry, Ozeas.
Não li e não gostei.
Não acredito neste senhor. Para mim, não basta sair do partido podre e posar de correto.

Acredito e gosto de VOCÊ!

Beijocas ;)

claudia disse...

Oi meu querido.

Sabe, muitas vezes olho para minha filha e digo...que privilégio filha, você estuda, vai à escola, mamãe compra seus livros, você já sabe ler.
Gostaria tanto de nunca dizer isso a ela, gostaria que o privilégio de estudar fosse de todos.
Mas o mundo amigo, gira em torno de coisas muito, muito menores.
Ela tem uma bela herança, mas eu espero que nunca, nunca precise dela. Apenas que ganhe a vida pelos seus méritos.
O pessoal nunca ensinou seu povo a pescar ... é mais fácil e mais lucrativo para eles, dar o peixe.
Que pena, que pena.
Um beijo grande.
E que bom, que bom que vc. faz a sua parte.

Serjão disse...
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Serjão disse...

Acho que a idéia do pronunciamento poderia atá encontra dificuldades por que a volta às aulas tem datas diferentes entre as instituições. Mas considerar assunto menor? Só se foi para alguém que nunca sentou o rabo numa cadeira escolar por muito tempo. Chegou à presidência apesar disso. Daí não dá o devido valor. Mas vai tentar dizer isso para todo mundo ouvir? Vão te chamar de preconceituoso e reacionário. Bom carnaval. Dica de passeio nos dias de Momo: Buenos Aires. Bons restaurantes, Bons roteiros e um povo que vc já mencionou gostar e admirar.(rs) Abraços