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"Por favor, leia devagar." (Ferreira Gullar)

28 janeiro, 2012

Uma mera troca de dominação (ou muitas aspas em pouco texto)

A Primavera Árabe, como ficou conhecido o movimento de “libertação” dos povos daquela região, teve como “cereja do bolo” a retomada do poder pelo “povo” da Líbia das mãos de Muammar Kadhafi.


Na “virada de jogo”, acompanhada on-line pelo mundo, não faltaram componentes tecnológicos, desde mobilizações populares através da internet, novo componente que “globalizou” a difusão de assuntos locais, bem como, articulou a rede de resistência ao ditador, até a participação de forças internacionais de “paz” e “solidariedade” às populações que rompiam as correntes de um cruel regime, acusado de seqüestrar, torturar e matar seus opositores.


A opinião publica internacional foi “mobilizada” ou fabricada conforme os interesses dominantes da mídia ocidental, todavia, é quase impossível se encontrar alguém que tenha formado essa opinião “mediana” através desses veículos e saiba informar com precisão quais os componentes de luta que estavam em jogo, quais os interesses estavam sendo contrariados, o que se pretendia além da “redemocratização” dos regimes – termo de vasta interpretação e subjetividade, que confunde-se com o próprio conceito de democracia.


Pois bem, passada a fúria inicial da “onda renovadora” na região, em recorte, verifica-se que na Síria, os militares que assumiram “provisoriamente” o poder, são tão cruéis e autoritários quanto seus antigos detentores; quanto a alternância, inclusive, duvida-se das promessas de realização de eleições a “curto prazo” conforme compromisso do “governo de coalizão” (leia mais aqui); da mesma forma, na Líbia, o que se instaurou foi um regime “libertado”, porém, que ainda vale-se de práticas de seu antecessor verdugo, assim denunciam as Organizações Não Governamentais (ONGs) que por lá atuam, como por exemplo, a Amnesty International – Anistia Internacional (leia mais aqui).


Corroborando essas denúncias, agora chegou a vez dos Medecins Sans Frontieres – Médicos Sem Fronteiras – “botarem a boca no trombone”, dando conta que além de serem proibidos de atender determinados prisioneiros, outras pessoas estariam sendo encaminhadas aos seus cuidados após saírem das seções de torturas, que se multiplicam contra antigos detratores, membros do regime deposto, ainda, que outras são levadas aos postos médicos para serem atendidas somente para terem condições de continuar a serem submetidas a uma nova série de “interrogatórios”, o que vem sendo considerado “inaceitável” pela ONG médica e deve levá-la a abandonar as prisões daquele país (leia mais aqui).


Essas reflexões nos remetem ao título do post, afinal, pelo que se configura e observa, a “libertação” daqueles povos se revelou algo próximo de uma mera troca de dominação, coisa parecida como trocar “seis por meia dúzia”, ou a jocosa constatação de que de “pato a ganso, tudo é marreco”, afinal, na prática, tanto os depostos como os ascendidos valem-se dos mesmos métodos de controle e segurança de sua população.


Desta narrativa fica em suspenso a pergunta, que ao final tento responder: onde foi que se errou, ou melhor, como se poderiam evitar esses erros? Não sei se a resposta é tão clara, ou mesmo se teria condições de dar um diagnostico tão preciso, porém, já durante os protestos e combates se desenhava “uma crônica de uma morte anunciada”; se por um lado a participação popular, como em todo processo revolucionário é indispensável e fundamental, sob pena de se descaracterizar o movimento configurando-se mero golpe de estado, portanto, sem povo não há revolução, por outro, a história prova que não raramente os movimentos populares “voluntariosos” são usados pelos mais ardilosos para a conquista de Estados.


Atrevo-me em afirmar, que não basta a participação popular nos momentos iniciais dos movimentos de insurreição, como empunhadores de bandeiras e armas, franco atiradores, ou simplesmente “buchas de canhão”, creio que a verdadeira redemocratização se dá a partir do momento em que os concernidos, envolvidos interessados no processo, participam de todo o processo político transformador, do início ao fim, da discussão dos destinos almejados, sua preparação, atuação política e armada quando é o caso, composição do poder, formulação de políticas, sua aplicação e permanente fiscalização. De certo não é o que se vê na região “pós-primavera”.


Pelo que se pode notar, a tal “libertação” na região mais parece uma “troca de senhores” ou “troca de grilhões”, isso porque, enquanto “massa de manobra” o povo atendeu bem aos anseios de espertos usurpadores do poder, que percebendo a necessidade de mudanças exigidas pela população, aproveitaram-se até onde lhes era interessante dessa mobilização, entretanto, diante da fragilidade de organização e falta de discussão acumulada, geradora de um consenso final do pretendido, lançaram mãos das rédeas e condução das revoluções, a princípio popular, porém, transformando-as em instrumento de golpes de estado.


Não vejo grandes mudanças nos meses que virão, inclusive, temo que o processo se agrave e se afaste cada vez mais dos iniciais discursos “libertadores”, ou para atender a interesses privados em âmbito local e regional, ou para satisfazer e tranqüilizar alguns “aliados” internacionais, aflitos com possíveis ascensões “fundamentalistas”.


Em suma, embora com novos atores em cena, parece que o texto da peça encenada seja o mesmo e seu desfecho já conhecido por uma desencantada platéia; ainda que com algumas modificações no roteiro ou direção, os atos se repetem na troca de cenários reconstruídos para novas exibições, todavia, todo anúncio da “grande estréia” não passa de uma mão de tinta aplicada sobre um surrado pano de fundo de um velho teatro, cujo dono insiste em enganar o incauto público, cobrando bilhetes para aplausos de estórias já conhecidas e mal contadas.

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