Minhas opiniões e publicações, expostas neste espaço, são reflexões acadêmicas de um cidadão-eleitor, publicadas ao abrigo do direito constitucional da liberdade de expressão

"Por favor, leia devagar." (Ferreira Gullar)

07 janeiro, 2013

Good Morning, Vietnã!


Good Morning, Vietnã! Segunda-feira é um bom dia para mudar, recomeçar; creio que em algum momento seremos forçados a olhar as coisas sobre uma perspectiva de preservação da existência, melhor que ser compelido é fazer por opção, portanto, que tal começar hoje mesmo?

O Renascimento é conhecido como o período que o homem se redescobre, abandonando paradigmas medievais que governavam o pensamento ocidental, todavia, conforme nos ensina Hilton Japiassu, “sua inspiração fundamental pouco ou nada teve de científico. Ela [a época] foi marcada por um ideal eminentemente retórico, diz A. Koyré, supervalorizando as letras e as artes. Foi uma época pouco dotada de espírito crítico e povoada das mais grosseiras superstições...” 

Por sua vez, somos homens da modernidade, inspirados na crença da razão cientifica como guia de nossas ações, inclusive, há quem acredite e fale estarmos numa “pós-modernidade”, posição que não comungo, isto porque, os ideais emancipatórios do ser humano, que representariam a modernidade, jamais foram concluído, desta forma, ombreio-me ao conceito habermasiano de “modernidade tardia”. Mas esse não é o caso no momento, resolver se estamos em “pós”, “alta”, ou “reflexiva” modernidade, a questão é que somos pelo menos, aquilo que filosoficamente se denomina homens modernos, homens da ciência.

Pois bem, se olharmos para trás, bastam os últimos cinquenta anos, para afirmarmos que assim como no Renascimento, nosso mundo estava repleto de superstições e crendices sobrenaturais, portanto, o homem de ciência de meio século (ou pouco mais), enfrentava a irracionalidade como adversária de seus postulados racionais. As bruxas e demônios renascentistas, ainda habitavam a terra, mesmo que clandestinamente, porém, continuavam a atormentar as mentes mais crédulas de suas existências.

Façamos uma observação: estabelecemos meio século como parâmetro, de maneira arbitrária, até porque ainda habitam entre nós ocidentais, milhões de pessoas que entregam seus destinos a forças desconhecidas e transcendentais, porém, os avanços tecnológicos dessas últimas décadas, tem causado significativas baixas nas concepções metafísicas, destarte, ainda que se tenha no Cosmos a revelação da verdade ou o sentido da vida, a participação da ciência já é indiscutível no cotidiano humano.

O fim do mundo, prenunciado em calendários alegóricos de povos extintos, meteoros, vulcões, furacões, previsões de Nostradamus e tantos outros profetas, não aconteceu, inobstante, fizeram com que a indústria cultural ganhasse um pouco mais com livros, revistas, filmes, televisão etc.; ultrapassadas várias e várias vezes as datas fatídicas, que agora ficaram sem crédito para novas esperas, a humanidade segue seu caminho, creio, que pela primeira vez em séculos, sem um dia fixado para o fim dos tempos, destarte, estamos entregues a nossa própria sorte, ou melhor, as nossas próprias razões.

E, exatamente, nesse momento em que o homem avança para assumir as rédeas de sua trajetória como espécie que, contraditoriamente, passamos a correr maiores riscos, não por castigo divino ou coisa que o valha, mas porque junto com a emancipação científica, também estamos agimos da maneira mais irracional possível, sugando ao limite todas as condições de vida planetária e estabelecendo abismos sociais inadmissíveis e perigosos.

Não faltam cientistas sociais, economistas, filósofos, geógrafos, ambientalistas e tantos mais, para dizer que nosso caminho está cada vez mais perigoso; nossa via de ida está tão acelerada, que corremos sério risco de não conseguir frear na próxima curva um pouco mais acentuada; inclusive, para muitos, a colisão eminente é questão de tempo, isso porque, ainda que iniciássemos qualquer manobra reversível, esta seria tardia e inócua.

Nunca tivemos tanta capacidade de previsão dos acontecimentos, as tecnologias contribuem significativamente para cálculos precisos de gastos, custos e benefícios; temos condições de saber o impacto que mínimas ações podem causar na economia, no meio ambiente, na saúde, enfim, se erramos é porque queremos, somos responsáveis por nossas inconsequências.

As gerações passadas tinha o hábito de acumular para as gerações futuras, pensavam em construir uma sociedade melhor para os que chegassem, por exemplo, famílias juntavam patrimônios, construíam poupanças, investiam em educação, sacrificavam-se para que os filhos tivessem uma vida melhor; nossa geração atual inverte os papéis, os pais sugam o futuro de seus filhos, consomem e acumulam coisas que serão obsoletas em poucos meses, depredam e esgotam recursos, se endividam e deixam para o futuro a herança da fatura material e social; nossa geração se aproveita do mundo, bebendo até a última gota o seu suco, legando para os que virão o bagaço chupado, cada um que se vire como puder.

Nossa sede de consumo está destruindo o planeta e agudizando os distanciamentos sociais, todos sabemos disso há algum tempo, todavia, não refreamos nossos comportamentos e hábitos, é como se pensássemos em silêncio: “calma, ainda dá para mais uma gotinha antes de parar”. Ledo engano, se todos estão espremendo até última gota, no final, não restará nada para ninguém. Mas, parece que ninguém quer ouvir os neoprofetas do apocalipse.

Libertos dos desígnios cósmicos, o homem, senhor de seu destino, tripudia da razão desconsiderando o nexo de causalidade existente entre suas ações e efeitos. Não faltam vozes de alerta, estudos convincentes, previsões embasadas com o melhor que a técnica pode oferecer, para dizer que chegou a hora de parar, porém, o frenesi de usar a vida no seu limite, o consumo desmedido e desnecessário, e a ganância do lucro absurdo e humilhante,  impedem que se possa fazer algo para evitar o pior que está por vir.

Enfim, ou sentamos todos em uma mesa de iguais, com mínimos denominadores comuns, estabelecendo um fio condutor de resgate planetário, respeito ao outro como indivíduo, e melhor participação de todos nos recursos que ainda nos restam, ou encontraremos um beco sem saída no final do caminho. A utopia tem que se tornar meta, porque fora dos sonhos só nos resta uma realidade de difícil solução.

Termino, novamente indo longe demais num bom dia, recordando um poema que não sei se já postei por aqui, pouco importa, porém, bem próprio para ilustrar a situação:

Somos os dos últimos tempos
os ricos de crediário
os puros de Cursilho
os filhos de mães solteiras
Somos os dos últimos dias
os que contestam o burguês
e vivem na procura de status
os que enumeram teorias
e se engasgam com a prática
os que amam livremente
e vasculham o útero verde
na sondagem mortal
Somos os da última década
os sem dia seguinte
os de futuro incerto
os da classe média
os vermes falsos das tardes
os amedrontados
os covardes
os contraguerra
lutadores sem pátria
Somos os dos últimos anos
os ateus que casam de branco
os sonhadores artificiais
os seres da Lua
os máquina de Marte
os mortos de fome da terra
os poetas
os filósofos
os assassinos
os parasitas
Somos os dos últimos momentos
os de sangue quente
os de voz grossa
os de mãos forte
os impotentes
os filhos de pais penúltimos
os pais de filhos inúteis
Somos os das ultimas horas
os agentes poluidores
os pacientes poluídos
os comandantes
os comandados
os engarrafados no tráfico
os bêbados de fim de jogo
os troncos secos de fornalha atômica
os pobres homens honestos
os ricos homens espertos
Somos os dos últimos segundos
os segurados
os neuróticos
os atrasados
os necrosados
os vítimas dos vigésimos andares
os torcedores tarados
os jovens traumatizados
os desprezados
os que podiam ser
os castos
os machos
os piegas
os vitoriosos inválidos
Somos os do último século
os de nervos tensos
os de futuro negro
os de fruto pobre
os de terras secas
Somos os da última fase
a mórbida
a vingativa
a solitária
a assassina
............... fase vital dos falsos homens sem vida

(Oráculo – Patrícia Blower)

14 novembro, 2012

Os mistérios de Gabriel




É interessante como somos perseguidos pelo destino, como gira a roda da fortuna, como há sincronicidades latentes entre pessoas, ou entre pessoas e objetos, na expressão usada por Saulo Ramos, verdadeiros “códigos da vida”. Para mim a prova cabal desse “místico” envolvimento, pessoas e coisas, está presente no romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez.

Talvez não tenha lido algo mais instigante que a história dos Buendías, de todos os Josés e Aurelianos que se repetem ao longo do enredo. Já nem recordo mais quantas vezes citei a obra que tornou o autor um de meus prediletos, me compelindo a partir dos Cem Anos, ao “Amor nos tempos do cólera”, a “Crônica de uma morte anunciada” e ao “Memórias de minhas putas tristes”; embora minhas escolhas tenham sido de qualidade, lamento ter lido tão pouco de Marquez, ainda lerei mais, o colombiano disputa meu tempo com o peruano Mário Vargas Llosa, nessa grande literalidade concorrente sul-americana.

“Cem Anos de Solidão" é belíssimo, rico em detalhes, duro como uma poesia de combate e suave como a imaginação infantil; pelo livro pude passear por Macondo – vilarejo onde se desenvolve a trama centenária – com suas borboletas amarelas, delatoras dos apaixonados; conheci o cigano Melquíades e a descoberta do gelo por um dos Josés, que ingenuamente o chamou de “maior diamante do mundo”; imaginei a “doença da memória” narrada pelo autor, que obrigava aos moradores do povoado a pendurar etiquetas nos objetos, para que seus nomes não fossem esquecidos, que por óbvio desenvolvimento da moléstia, restou que também acabassem por esquecer como se faz a leitura das letras, palavras... enfim, impossível descrever todas as sensações que me acolheram ao ler o livro.

A obra é de tamanha envergadura que se estilizou pelo continente, até aqui em terras brasileiras, foi recordada em sua essência imaginária; Dias Gomes em razoável adaptação – nunca assumida como tal – escreveu “Saramandaia”, novela televisiva que se desenvolve num realismo fantástico, próprio de Garcia Marquez e seu livro maior, porém, incomparável sob qualquer parâmetro que se utilize.

Não importando todas as sensações que o livro me deu, hoje sou surpreendido com uma matéria bastante interessante disponível na internet, outro sinal sincrônico de minha aguçada imaginação, descubro que o livro em comento foi classificado pelos italianos como uma das “dez obras literárias que os leitores não conseguiram acabar de ler”, na pesquisa feita “através do jornal Corriere della Sera, do Facebook e do Twitter, os italianos se mostraram divididos” quanto aos livros mais impossíveis de serem terminados. (para ler a matéria, clique aqui)

Não sei se fico envaidecido ou indignado com a notícia. Se por um lado, quase me sinto dotado de poderes de compreensão extrassensoriais, além da suposta média italiana, por ter conseguido ler não uma, mas duas vezes o romance e pasme, gostado; por outro, sinto certa indignação com o que considero evidente mediocridade no antigo continente, me parece ser essa a melhor das duas opções. Mas isso na verdade não importa, não é o objetivo do texto, que pretende flanar pelos “mistérios” das coincidências e acasos da vida.

Livro e autor me acompanham, só nesta semana por pelo menos três vezes fiz sua indicação, inclusive em uma dela tive a confirmação da compra como presente para terceiros; novamente, hoje em minha caixa de e-mails está lá outro texto de Garcia Marquez; agora, abro o noticiário e me vem de soslaio a pesquisa italiana.

Macondo realmente me persegue, a fantasia de Marquez se materializa constantemente aos meus olhos. Essa relação poderia se dar com Jorge Amado, Antonio Callado, Eduardo Galeano, Ferreira Gullar, ou mesmo como citado o próprio Llosa, com quem tenho maior intimidade numérica de texto, entretanto, é Gabriel Garcia Marquez quem habita meu cotidiano, já na simples identificação pessoal com seus títulos; Marquez aparece de onde menos espero e faz o giro da roda da vida parecer ser mais emocionante e misterioso.

De qualquer forma, não tenho porque reclamar dessas relações coincidentes e repetidas em várias ocasiões, até porque quando ocorrem estou em boa companhia; minha decepção fica por conta dos italianos, me surpreenderam com tamanha falta de imaginação.

11 novembro, 2012

Pecado Original (Caetano Veloso)



Good Morning, Vietnã! Domingo é assim mesmo, silencioso em seu início, pensativo no seu desenrolar e previsível no seu fechamento, sem muitas novidades, salvo uma possível antecipação de título para o Tricolor, ai sim, terá sido um grande dia.

Fora o noticiário político, criminal e esportivo - não necessária mente nessa ordem - das grandes mídias, que disputam a atenção de seus leitores, há muito pouco de novo em destaque que me chame atenção, na verdade chego a admirar a criatividade com que estão sendo pautadas as manchetes, na falta de melhor assunto, aparecem sempre as famosas pesquisas que revelam gostos e comportamentos, no final mais parecidos com receitas de sucesso ou, como nos tempos de seu apogeu, minutos de sabedoria (no Face não dá para sublinhar com itálico, pena!).

Quanto espaço público desperdiçado com conclusões inconclusivas(!), porém, com fieis leitores que aceitam as fórmulas de maneira passiva, as receitas fazem sucesso, de outra forma, certamente, não estariam enchendo as páginas dos sites; espaço público que não gera esfera pública parece no final das contas uma baita perda de tempo, enfim, não me cabe fazer juízo de valor das preferências alheias, nem é também o propósito explicar a diferença entre espaços e esfera pública nesse momento, quando muito, comentar por mero diletantismo dominical.

Nessa profusão de “dicas, truques e quebra-galhos”, encontrei uma pérola no portal IG, destacado em manchete de primeira página: Saiba os presentes que elas odeiam (Pesquisa aponta presentes que mulheres odeiam ganhar) – clique no link para ler integral.

Não dá pra mentir, a chamada do artigo é curiosa, nada mais que isso, curiosa; assim, como é domingo e o tempo não me incomoda quando sorvo minha caneca de expresso e fumo o primeiro cigarro do dia, passei a leitura daquilo que pode significar a salvação das relações com o sexo oposto, uma pérola.

Das conclusões que a tal pesquisa apurou, o destaque dos dez presentes mais odiados me colocou em situação delicada, até porque fora o listado, minha criatividade está limitada ao bolso, minhas provisões orçamentárias não permitem carros, viagens ou ilhas gregas como opção, portanto, a seguir o receituário da felicidade é melhor sequer presentear; ok concordo, aspirador de pó não é um baita presente, mas para quem já ganhou em certa ocasião uma panela de pressão no aniversário (eu ganhei!), até fica carinhoso um buquê de flores, um perfume, ou lingerie.

Sem querer estragar a leitura do artigo, que mudou a minha vida de hoje para frente, transcrevo a lista de pérolas e críticas publicadas, só para facilitar a compreensão do que estou falando.

1. Roupa íntima - Tamanho errado ou muito vulgares
2. Produtos de higiene pessoal – Marcada errada ou indicam que a mulher não é asseada
3. Perfumes – Não gostam do cheiro da marca escolhida
4. Utensílios de cozinha – Mostra que eles as veem como empregadas
5. Bijuterias baratas – Indicam que eles são avarentos
6. Chocolates – Marca que elas não gostam
7. Sapatos ou chinelos – Tamanho errado
8. Aspirador de pó – Insinua que a casa dela deveria ser mais limpa
9. Flores – Eles nunca lembram o tipo favoritos delas
10. Roupas de ginástica ou DVDs de exercícios - Sugerem que ela precisa emagrecer
  
Ou seja, conforme os especialistas do mercado (sempre o mercado!), tenho errado muito em minhas escolhas, entretanto, por compensação e alívio não erro sozinho, todos os homens erram em querer simplesmente fazer a corte, atribuir um mimo na troca de um simples sorriso; portanto, das duas uma, ou estamos diante de mais uma daquelas enormes baboseiras com as quais perdemos nosso tempo, sorvendo um café e fumando um cigarro, ou no final das contas, se os gurus comercias estiverem certos terei que concordar com o que um dia pontificou Caetano Veloso: “Mas a gente nunca sabe mesmo / Que que quer uma mulher”

No mais, bom café e bom dia, afinal, esse post também não é lá tão diferente em criatividade dos que estão nos links midiáticos nesse domingo.

28 outubro, 2012

E agora Luiz, a festa acabou... (breves considerações)



Nota: Texto escrito antes de 28 de outubro, dia da realização do segundo turno eleitoral, porém, propositalmente, só publicado em momento posterior.

A onda moralizatória, que até então já vinha se avolumando no país, ganhou força e foi intensamente explorada, principalmente pelos partidos e alianças que enfrentaram candidatos do Partido dos Trabalhadores - PT, nos locais onde ocorreu o segundo turno para o Executivo Municipal.

É fato que os discursos da anticorrupção, da proteção social, do fim do uso da coisa pública em detrimento privado, do combate desmedido a criminalidade e da banalização da criminalização não foram inventados para uso instantâneo, especificamente, para o pleito eleitoral de 2012, basta observar a classe média, espectadora saciada momentaneamente, aplaudindo barbáries policiais nos cinemas (“Tropa de Elite” I e II), ou espetáculos midiáticos em filmagens televisivas de recebimentos de propinas por agentes públicos, ou mesmo, literais linchamentos de criminosos justiçados nas ruas das periferias.

Todavia, com as condenações impostas pelo Supremo Tribunal Federal – STF, aos denominados “mensaleiros”, expressão cunhada na porta de alguma redação de jornal a partir de astuta observação opositora, que bem soube explorar sua subjetividade e sonoridade ainda nos anos de 2005, o Partido dos Trabalhadores (em especial), teve que enfrentar severas críticas e passou a ser a representação daquilo que, quando era oposição, tanto condenava, afinal, os sentenciados não são meros militantes de terceiro ou quarto escalão do partido, bagrinhos despreparados ou ladrões de oportunidade, mas cabeças coroadas e muito próximas de seu maior ícone, Luiz Inácio Lula da Silva. Em metáfora, o PT de pedra virou vidraça, e de toda forma, após cada alvejada que sofre, tenta cobrir com papelão de remendo os estragos causados em sua fachada.

A questão que se coloca é que ao abdicar da autocrítica, o PT prestou um desserviço à causa democrática, isso porque, negando, como ainda faz, com veemência, a existência do esquema de uso de dinheiro público para compra de votos parlamentares, viabilizadores de suas propostas política, também abriu mão de capitanear as necessárias reformas  àquelas práticas corruptas, tão comuns na política nacional. O PT não inventou o “mensalão”, sabe-se disso sem ingenuidades, tal prática sempre permeou as relações executivo/legislativo, ora através da distribuição de cargos públicos; ora pela fruição de vantagens em licitações; ora por via de empréstimos junto aos bancos públicos com juros irrisórios (ou mesmo inexistentes), com prazo a se perder de vista; ora com a distribuição de dinheiro em espécie, propina, como ficou demonstrado no julgamento da Ação Penal 470/STF.

Portanto, a cobrada autocrítica ao Partido dos Trabalhadores, não seria somente bem vinda sob o ponto de vista intrapartidário, mas fundamental para toda sociedade, isso porque, representaria a condenação das práticas espúrias até então instauradas, teria o condão de reconduzir valores éticos ao seio das relações políticas; todavia, o silêncio e anuência do partido, inclusive com desagravos pós-condenação, em nome da “causa maior” revolucionária, igualou no modo de fazer política o PT e seus opositores.

O Partido dos Trabalhadores bem sabe o custo que representa admitir seus erros, ao caminhar pela via utilitária, própria da ética “burguesa”, por isso prefere não se abrir a essa autópsia, receia que o custo seja maior que o benefício final; insiste na negativa à crítica sob a premissa da necessidade de transformações mais profundas na sociedade, repetindo o discurso “que os fins justificam os meios”, ou naquilo que considera a melhor das conclusões: que, por ainda estarmos na fase pré-histórica da sociedade, todos os meios são válidos para se alcançar os objetivos políticos e estes devem ser precipitados, logo, violar a ética burguesa é uma ação revolucionária.

O Partido dos Trabalhadores, com esse comportamento irreflexivo, entretanto, entra em profunda contradição performativa, ou seja, seu discurso permanece o mesmo, porém, sua prática lhe nega legitimidade, tal racionalidade estratégica evidencia que se tornou ontologicamente igual aos que sempre combateu.

Abra-se parêntese, sob esse paradigma a razão é dominação, não há alternativa senão aquela que tenha o mesmo sentido finalista, qual seja, o poder; ainda que se tente a legitimação, justificada nos propósitos da construção de uma sociedade mais justa, porém, a razão permanece fundada sobre a premissa da vitória de determinado coletivo da sociedade sobre outro, logo, continua sendo a expressão da conquista do poder através da aniquilação do inimigo, destarte, a práxis em nada difere do grupo dominador que se pretende substituir, além do discurso das boas intenções, todavia, de igual modo, representa o interesse de apenas parte da sociedade.

Outra questão que surgiria, em especulativa autocrítica do PT, não menos ligada ao tema inicialmente proposto, seria o enfrentamento de mais uma de suas fragilidades interna: a construção do mito, o culto personalista da figura de Lula, verdadeiro ídolo com pés de barro.

Inobstante a sua trajetória, merecedora de destaque e exemplo militante sob vários aspectos, há que se estabelecer um novo marco no personagem Lula após sua posse como Presidente.

Elevado ao cargo maior do poder nacional, Lula foi gradativamente sendo dirigido, ou por opção própria, já que goza dessa autonomia, para acordos e alianças que descaracterizaram suas iniciais feições políticas. Sem adentrar em pormenores, enfatize-se, porém, que Lula adotou a postura do reconhecimento da identidade dos desiguais na sociedade, tratando diversos de seus aliados e a ele próprio como pessoas acima da lei e do controle coletivo; como exemplo desse outro Lula, que abdicou de um discurso histórico republicano, cite-se, quando proferiu a frase: “Sarney tem história para que não seja tratado como se fosse pessoa comum”.

O que conclui-se da fala lulista é: que nem todos são iguais perante a lei, embora todos os súditos devam ser seguidores das regras gerais, porém, à alguns é permitido seu contorno; ainda que por mera questão estratégica de governabilidade, todavia, essa razão fez-se caminho para a admissão de qualquer irregularidade justificável em nome do “interesse maior”. 

Assim, se retorna a questão inicial, uma moralidade flexível; o que se permitiu, logo em primeira análise é que tudo é possível e permitido no campo ético-político, desde que, quem o faça pertença a determinado estamento (sob uma concepção weberiana); dizendo de outra forma, aos amigos e aliados tudo é permitido.

Enfim, a necessidade da autocrítica petista serve de ensaio para reforça uma posição que venho defendendo, qual seja, que a bandeira da moralidade pública deve ser empunhada pelas forças democráticas e progressistas, antes que segmentos mais atrasados da sociedade, de maneira oportunista assim o façam (como já vem fazendo), comprometendo o estado democrático de direito. 

Pelo exemplo se adquire legitimidade; as  forças comprometidas com a democracia devem a todo tempo se expor, de maneira sincera, cortando na carne quando for preciso, para que obtenha confiança e respeito da coletividade; não basta que o discurso seja diferente, deve-se trilhar um caminho demonstrando que a prática se coaduna com a teoria, a meu ver, o ponto de partida para esse reconhecimento é a autocrítica.

Dessa reflexão, além da reconstrução interna do partido, em resgate de valores dos tempos de sua fundação (e a regra não vale só para o PT), poderão surgir outros frutos. Ao se abandonar a lógica estratégica-instrumental, se afastam as perspectivas meramente negociais, espaço em que cada grupo tenta impor ou preservar o máximo de vantagens e privilégios; no modelo comunicativo que ora proponho e, que parte da inicial reflexão interna de um partido político, abre-se a oportunidade para que cada qual se veja integrante, não só de um partido reconstruído, mas integrante de uma sociedade onde aquele partido, também consegue se ver e pode representar; decorrente, a participação não significará a vitória de somente uma de suas partes, mas fará surgir o sentimento de pertencimento a um todo.

A razão não deve ser usada como ferramenta de dominação, mas como instrumento de libertação. É mister, portanto, abandonar a estreita leitura que apontam há uma só resposta diante de uma tese, entendendo que há possibilidade de se obter à mesma pergunta ou problema várias alternativas. Destarte, acredito que existam outros modos de fazer política, fora dos modelos tradicionais de usos e trocas, aceitos como naturais pelo PT enquanto governo.

Portanto, ainda que inafastáveis, as discussões das questões de moralidade, estas não podem se prestar como instrumento, que desemboque em maior controle da sociedade, restringindo liberdades individuais e coletivas, anulando avanços duramente conquistados no processo de construção do estado democrático de direito, mas sim, deve servir como detonadora, ponto de partida e aprofundamento da sociedade que se almeja, diante da facticidade possível. Não há, portanto, outro campo, senão o democrático para se travar essa discussão, sob o risco do alto preço que se venha pagar, pela negligência ou encabulamento na empunhadura dessa bandeira ética.

Uma vez delimitado o campo democrático, como o espaço para se travar esse debate, se afastam determinadas possibilidades de dominações, como no exemplo norte-americano, frente ao recrudescimento dos direitos fundamentais pós 11 de setembro, que travestido da justificativa de proteção social serviram a ampliação dos mecanismos de vigilância e controle da sociedade; desta forma, de igual maneira, a questão da moralização da coisa pública não pode servir a esses obscuros propósitos.

Encerro: sem uma autocrítica severa, profunda, das forças que compõem o espectro democrático, em especial recorte o PT, destacado no texto, não se estará perdendo somente a oportunidade de avançar, mas também, se alimentará o que há de mais atrasado para a sociedade, o fascismo e suas vertentes maquiadas.

22 outubro, 2012

Juiz penitente (Albert Camus)



Durante muitos anos imaginávamos, que no “futuro” a sociedade de controle seria instaurada caso não resistíssemos, portanto, o combate deveria ser permanente. Os órgãos oficiais de informações eram os vilões da história, bisbilhotando e relatando nossos passos, preferências e relacionamentos, informavam ao Estado, que assim pretendiam controlar seus membros.

De modo, toda e qualquer medida que visasse identificar, cadastrar, ordenar, catalogar ou qualificar os membros sociais deveriam ser veementemente combatidas; resistindo, evitaríamos ao máximo uma sociedade orwelliana, prevista nos molde de “1984” e outras obras de ficção, não menos preocupadas com a dominação do indivíduo pelo Estado.

O inimigo era o Estado e sua ambição de dominação dos seres; em seus bancos de dados não faltavam dossiês, produzidos muitas das vezes com relatos imprecisos ou subjetivismos dos investigantes, ainda que com certa “eficiência” ao que se propunha, porém tais informações ainda deixavam espaços à resistência, eram fragmentárias, desconexas e seus cruzamentos equivaliam a longos e difíceis exercícios de práticas policialescas.

Todavia, com o avanço tecnológico na produção e armazenamento da informação as coisas foram se modificando, os dados, antes registrados em pálidas fichas de papel, passaram a fluir com maior velocidade e organização, através da via cibernética; órgãos que compunham autonomamente o sistema de monitoramento dos cidadãos foram sendo unificados ou aproximados, as trocas de dados foram capilarizadas, ficou mais fácil e rápido a resposta do Estado a qualquer tentativa insurgente.

A preocupação, daqueles que um dia sentiram na pele os efeitos do aparelhamento estatal-policial, conduziu a resistência para a limitada lógica da positivação dos direitos, acreditavam, em tradicional equivoco, que a lei seria instrumento capaz de frear as desmedidas invasões da individualidade; cite-se, por exemplo, a previsão do habeas data na Constituição brasileira de 1988, remédio jurídico, onde se depositou esperanças em manter sobre certo regramento os dados sensíveis dos cidadãos. Travava-se uma guerra, entre o interesse público e a vida privada, entre a soberania do Estado e o indivíduo, de tal maneira, que a questão apresentada indicava como melhor forma de resistência o controle dos controladores, limitando ao máximo a produção, a manipulação, o arquivo e acesso das informações.

Pois bem, em minha avaliação, perdemos essa guerra, ou melhor, nos rendemos aos encantos de habilidosos diplomatas formados na arte da informação e contrainformação, que por recursos transversos nos recrutaram como verdadeiros agentes infiltrados; fomos convertidos sem resistência ou reclamações maiores, tudo nos agrada, desde que seja confortável e lúdico.   

Na atualidade, damos vistas às nossas intimidades voluntariamente, não opomos a menor resistência a qualquer controle, pelo contrário, facilitamos nossos vigilantes ao máximo, quando, desde ingênuos cadastros em contas de e-mail a sites de compras ou instituições financeiras (bancos, cartões de crédito, pague fácil etc.), passamos todos os nossos dados ao mercado, também, quando confeccionamos algum documento num órgão público (identidade, passaporte, habilitação etc.), isso sem contar a imensa quantidade de particularidades deixadas ao rastreio pelas redes sociais, com direito a nossas fotos, de amigos e familiares, chegando a ponto de expor o que comemos, bebemos, nossos secretos fetiches e até nosso exato pontos de localização (check-in), naquele instante, no mesmo diapasão, a permanente vigilância panóptica por câmeras (“sorria, você está sendo filmado”), comumente aplaudidas, em nome de nossa “segurança e controle”, além dos registros de vistos de estada, dados de embarques e por ai vai; inexoráveis dados vitais a quem tenha acesso e pretenda cruzá-los, na busca de nossas individualidades ou liberdades.

O controle e domínio de nossos atos são tamanhos, que chegam ao ponto de dar saudades das cartomantes, quiromantes, astrólogos e adivinhos em geral, que se valiam da mera intuição divinatória, ou exercícios psicológicos, dizendo nosso “passado, presente e futuro”, para no final nos confortar a alma, carentes incansáveis que somos na busca por uma vida melhor. 

Nesse paradoxo, perdemos a própria ingenuidade de acreditar que somos livres, para mudar com facilidade o que queremos, se é que ainda percebemos querer mudar alguma coisa diante desse estado de hipnose; é complexo o processo de emancipação, são estreitos os caminhos e difícil a passagem para a autodeterminação, cada vez mais somos transformados, não transformadores.

12 outubro, 2012

Os equívocos da neutralidade



Lembro em certa feita, ainda acadêmico de Direito da UFF, lá pelo 5º período, que um colega, Rogério Vilar Lira, munido de uma filmadora 8mm e correndo o chapéu para comprar fitas, resolveu produzir um filme sobre a Faculdade de Niterói; todo empolgado, afinal, acabara de ler o livro Roteiro, de Doc Comparato, e na sua animada juventude transformadora, desejava registrar o Curso, “como ele é” (palavras do próprio).

Foi nessa ocasião que outro colega e amigo, inclusive hoje no Face, Lícius Coelho, lhe fez uma singela indagação, ainda que em tom de deboche: “mas qual será a ideologia do filme?” Plausível questionamento, afinal, por trás de das lentes haveria uma pessoa, que transmitiria o seu olhar, a sua interpretação sobre o que resolvesse filmar, selecionando ou afastando imagens, escolhendo conforme critérios pessoais o que seria mostrado e o que não atendesse suas expectativas de verdade.

Recordo bem, a ingênua resposta de nosso aprendiz de cineasta: “o filme não terá nenhuma ideologia, será neutro”; não pude resistir à gozação que se seguiu com o comentário afirmativo do Lícius: “então você vai soltar a câmera no saguão e ela flutuará pela faculdade aleatoriamente, decidindo o que ficará registrado”, confesso que sorrindo também entrei no sério deboche que seguiu. Creio que o Lícius sequer se lembre dessa passagem (ele dirá), mas para mim, iniciante na arte política, o fato ficou marcado como uma espécie de “parábola da neutralidade”.

Dessa singela gozação, guardei uma grande lição: não há neutralidade, todo olhar humano, toda ação, qualquer movimento que se faça é provido de subjetiva ideologia. Ainda que digamos que nos posicionamos no campo da neutralidade, essa postura já é ideologizada, se faz comportamento e compromisso político, portanto, sujeito a elementar lei de causas e efeitos.

Veja-se, por exemplo, a questão da igreja católica durante a Segunda Guerra Mundial, comportamento a propósito já reconhecido pelo próprio Vaticano; a aparente neutralidade dos sacerdotes e do Papa no período custou muitas vidas e destruição; de igual maneira, na história mais recente, a America do Sul viveu entre as décadas de 1960 e 1980 períodos de chumbo, também durante as ditaduras militares implantadas no Cone Sul, era comum se ver padres e bispos abençoando obras e ações dos usurpadores. Enfim, não faltariam exemplos do custo que representam as formais neutralidades.

Insisto na tese política proposta, dizer-se neutro é como se esconder no armário durante a discussão do casal, ainda que você tenha tudo a ver com o desentendimento, aguarda quieto e em silêncio, imperceptível, esperando o momento mais apropriado para voltar à cama que já ocupou, ou sair correndo com as calças nas mãos por ruas desertas. Afinal, proclamar que “não tem nada com isso” é hipocrisia, pois quando a cama está quente e as condições objetivas permitem, é lá que deita nosso herói oculto, em outras palavras, quando termina o momento da responsabilidade volta, içada à condição de “oposição imaculada”, resurge na semana seguinte, para continuar formulando e propondo, porém, sem compromissos verdadeiramente assumidos, senão com as palavras, vive de atribuir responsabilidade aos outros.

Aplicando na prática: o PSOL tenta se afastar da “orgia política” (a expressão no caso é minha) de Niterói, acredita que conseguirá manter essa condição paladina e guardiã da moral e dos bons costumes políticos, algo assim com um dia foi a Tradição Família e Propriedade – TFP, só que de esquerda; tal posição não me surpreende tanto, na verdade era até certo ponto esperado, posto, como um dia já afirmado, “os extremos na prática se encontram”.

O problema é que ao eximir-se da responsabilidade, atirando-se na neutralidade, coloca em prática a “solução final”, ou seja, equivale a jogar-se nos fornos de Auschwitz mais uma centenas de judeus, porém mantendo-se com a consciência tranquila de não ter negociado com nenhum oficial da Gestapo.

Nesse ponto recomendo aos amigos puros e imaculados do PSOL, o filme “A Lista de Schindler”, lá no filme, história real, o empresário Oscar Schindler participava com suas atividades empresariais do regime nazista, todavia, seus esforços internos eram no sentido de alimentar, proteger e guardar vidas, chegando ao ponto final de comprar, literalmente, com todos os seus recursos, o máximo que pode de homens, mulheres e crianças, cujos destinos traçados por seus algozes certamente não seriam outros, senão em algum forno de extermínio. Schindler fez política no momento mais difícil e da forma menos improvável, todavia, os resultados ficaram na história, os mais de mil judeus comprados se multiplicaram em novas gerações e hoje contam essa história, de como fazer política com princípios e estratégia.

Fazer política é assim, entender que existe uma ética que não devemos abandonar, porém, a omissão participativa significa que os espaços da ética e dos princípios que acreditamos serão ocupados por outro, não tão éticos, se não o fizermos.

Não vou voltar à discussão do voto útil ou da diferença entre os competidores do segundo turno eleitoral em Niterói, disso já falei no último post do Blog (Farinha do mesmo saco ou dane-se a população), acho que ali abordei bem alguns argumentos; neste texto, só pretendia discorrer um pouco sobre a infantilidade de práticas políticas, que acreditam na pureza da neutralidade sem consequências. Para mim, entretanto, a posição do PSOL em Niterói está bem clara: é um partido que nasceu para ser de oposição, não tem experiência administrativa porque nunca administrou (“Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais”), não faz política porque não há interlocutores à sua altura, portanto, jamais saberá enfrentar os desafios políticos fora de uma perspectiva de “pátria ou morte”.