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"Por favor, leia devagar." (Ferreira Gullar)

08 Julho, 2011

Ignorando riscos

Conforme GIDDENS, a palavra “risco” é invenção da modernidade, talvez ele esteja certo, nos dando boas razões para assim acreditar. O autor contemporâneo, afirma que o “risco” se estabelece somente a partir dos séculos XVI e XVII, quando o homem passou a explorar o mundo na busca de novos horizontes, confirmando a tese já então admitida, que nosso planeta não era plano e findável com cantos extremos.

Prossegue o autor, atribuindo à palavra origem portuguesa ou espanhola, própria dos países que se valiam da navegação, como meio, na descoberta desse mundo novo que se desenhava a cada viagem; o “risco” estaria ligado ao perigo, ao desconhecido, a algo advindo de uma vontade divina, portanto, fora do controle humano.

Há quem sustente, que “risco” deriva do italiano risicare (por sua vez derivado do baixo latim risicu, riscu), que significa "ousar". Neste sentido, o “risco” é uma opção e não um destino.

Todavia, uma coisa parece certa e comum, a palavra é tão moderna quanto o telescópio, a bússola, a circunavegação ou o ônibus espacial, portanto, é fruto dessa era que sucede a antiguidade; é o resultado emocional do enfrentamento do desconhecido

Na antiguidade não se corria riscos, não havia justificação para tal; nesse período da história o que imperava era o destino, portanto, ao se empreender alguma jornada, o que se fazia era cumprir uma ordem cósmica, universal e inalterável, determinada por um poder superior, que atribuía a cada um seu lugar na terra e sua caminhada, tudo dependia da “fortuna” – sorte.

Ao homem pré-moderno não cabia o que escolher, recebia uma missão na vida e a cumpria; não por acaso, os gregos vão dizer que fazer justiça, era dar a cada um o que lhe era por direito, assim, o que era devido ao ser, não passava de atribuir-lhe seu destino; escravo ou senhor, homem ou mulher, guerreiro ou pastor, pedinte ou soberano, cada um, devidamente “encaixado”, num mundo previamente esquadrinhado por um Grande Arquiteto do Universo, seguia seus desígnios e direitos, advindos do criador.

É a modernidade, que surge da razão, que questiona esse determinismo ontológico-metafísico; a razão humana, conquistadora do mundo, com suas teorias e provas, fundadas nos princípios que a ação racional é capaz de alterar os seus fenômenos, quem vai inaugurar o ponderável; não havendo mais a certeza de um Universo desenhado e acabado, ou que destino o homem tinha para seguir, faz nascer a dúvida, portanto, se há dúvida, o risco passa a existir, na possibilidade do erro de avaliação em relação a um acontecimento futuro, o risco se torna presente.Viver na modernidade, passou a ser equivalente a viver sob o risco de se estar errado.

Sobre o risco não há total controle, embora seja pretensão do homem estabelecer parâmetros de segurança, através de suas teses, para dele se afastar; todavia, na medida em que mais complexa vai se tornando a vida na sociedade moderna, e mais se conheça cientificamente os acontecimentos, paradoxalmente, o ser humano vai perdendo as rédeas de seus comandos.

Com o acumulo das descobertas, os saberes passaram a ser compartilhados, porém, fragmentados e sem rosto de identidade, logo, não há um controlador de todos os saberes; as ações e conseqüências, embora de conhecimento comum, cada vez mais se tornam dependem de um entendimento mútuo entre os seus bilhões de associados planetários, porém, essa mesma imensidão de pessoas, com interesses subjetivos e a falta de instrumentos hábeis a uma deliberação comum, agudizam cada vez mais a ausência de soluções, num mundo que parece acumular problemas, que são deixados para discussões num amanhã que nunca chega.

Fazemos de conta que tudo segue seu caminho normal, bloqueando os pensamentos dos riscos que corremos; cremos, ou aparentamos crer, que devemos seguir em frente, afinal, tudo se resolverá; a modernidade, em contradição com seus postulados racionais, voltou a acreditar no imponderável, na fortuna, na sorte que temos e teremos, pelo caminho que ainda há por percorrer.

Sabemos, mas não queremos discutir, que no mundo há um arsenal bélico-nuclear capaz de destruí-lo por cem vezes; sabemos, e evitamos refletir, que a população na terra em 2050 será de 9 bilhões de pessoas, ou seja, 50% a mais que nos dias atuais, também não cogitamos de quanta água ou comida será necessária para suprir a necessidade de toda essa multidão; é notório que a população carcerária no planeta já ultrapassou 10 milhões de pessoas, porém nos fazemos de desinteressados; conhecemos a variedade dos perigos ecológicos, provenientes da ação humana: lixo atômico, poluição química dos mares, efeito estufa, devastação das florestas, exaustão da fertilidade da terra pela abusiva utilização de fertilizantes, mutações biológicas derivadas do uso descontrolado de hormônios nos animais de corte etc.; esses são alguns poucos exemplos de uma tragédia que se evidencia, isso sem se falar da própria natureza, algoz permanente da espécie, que age influenciada ou não pela ação humana, com terremotos, tsunamis vulcões e variações climáticas imprevisíveis.

Enfim, assim como no mito do avestruz, a humanidade esconde sua cabeça no chão, diante de todos os seus riscos potenciais. Preferimos dedicar novamente oferendas aos deuses da prosperidade à solução dos nossos destinos, em evidente alienação, para fugirmos de uma paranóia que não queremos como companhia, porém, essa alienação voluntária não nos afasta de nossos riscos.

Em plena modernidade, tecnológica, globalizada, integrada por satélites, fibras óticas e aceleradores de partículas, nos comportamos como seres pré-modernos; nossos medos são tão grandes quanto os que tinham nossos ancestrais antigos, porém, camuflados em arrogâncias e individualidades cínicas; voltamos a nos curvar diante dos deuses em temor reverencial, em súplicas por suas intervenções; nos acovardamos, não enfrentando nossas questões, que rogamos sejam postergadas para outras gerações, porém, que já batem em nossas portas e nos afligem.

Parece que quanto maiores os riscos que corremos, mais nos afastamos de discuti-los, de enfrentá-los; deixamos de nos emocionar, ou nos neutralizamos a tal ponto, que banalizamos as ameaças que se anunciam de véspera e são publicadas no jornais do dia seguinte; nos individualizamos de tal maneira, que bloqueamos assuntos que deixaram de ser nossos e os pertencemos aos outros; cada um se tornou dono e usufrutuário de seu quanto de mundo, só nos interessamos por nossos problemas privados; agimos, como se os riscos que vivemos, em breve não serão mais nossos, portanto, que cada um cuide dos seus, nas suas horas. Entretanto, em algum momento, não haverá mais futuro para alguém debater.

Valendo-me de SOTAG, apud GIDDENS, cito: “Como observa Susan Sotag: ‘Um cenário moderno permanente: o apocalipse assoma – e não ocorre. E ainda ele assoma... O apocalipse é agora um seriado de longa-metragem: não ‘Apocalipse Agora’, mas ‘Apocalipse de Agora em diante’”.

Daí sigo e termino, ou nos sentamos ao redor da mesa na cozinha, servindo um café para todos, e discutimos os nossos destinos, ou simploriamente, vamos para nossas janelas, apreciar os quatro cavaleiros concluírem seus trabalhos, enquanto rogamos aflitos a chegada de um prometido redentor.

3 comentários:

Star disse...

Oi Ozeás
Levei muito tempo pra aprender a viver o agora, agora ninguém me tira mais dele... hahaha!
Bjs

Ozéas disse...

Feliz por ver vc por aqui, e mais ainda pela alegria do seu comentário.
bjs

Alice disse...

Na verdade vivemos as mesmas dúvidas , os mesmos desafios , os medos .
Cada um lutando com seu Dragão interior , eu já aprendi alutar com o meu e descobri que posso transforma-lo numa simples e insignificante lagartixa .
Bj